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Homilia - 21º Domingo do Tempo Comum - Ano A

Leituras: 1ª Leitura - Is 22,19-23

Salmo - Sl 137(138) 1-2a-2bc,3.6.8bc (R.8bc)

2ª Leitura - Rm 11,33-36

Evangelho - Mt 16,13-20

Pe. Eufrázio Morais




Ao Senhor, de coração eu vos dou graças, porque ouvistes as palavras dos meus lábios (Sl 137[138],1). Com esta expressão de ação de graças, unimos a nossa voz à voz do salmista reconhecendo a bondade de Deus que, escutando nossas preces, manifesta para todos nós a sua misericórdia. "Precisamos sempre contemplar o mistério da misericórdia. É fonte de alegria, serenidade e paz. É condição da nossa salvação"¹ . Uma das maneiras de contemplarmos a divina misericórdia é escutando as Sagradas Escrituras, seja na leitura orante da Palavra, seja na celebração litúrgica.



O Evangelho de Mateus que escutamos no capítulo 16, podemos contemplá-lo em duas partes: do v. 13-16 a primeira; do v.17-20, a segunda. Na primeira parte Jesus indaga seus discípulos acerca da sua identidade. Inicialmente quer saber o que dizem os homens a respeito Dele. Começam a apresentar, a partir do testemunho de fora, várias identidades à pessoa de Jesus, por exemplo, "alguns dizem que é João Batista; outros que é Elias; outros ainda que é Jeremias ou algum dos profetas" (Mt 16,14). Esses personagens trazem consigo uma característica muito comum entre eles: o profetismo. O testemunho de fora, isto é, dos homens que julgam Jesus ser um profeta, denota que Ele, tal como os profetas citados, tem uma palavra que "ilumina os que jazem nas trevas e na sombra da morte estão sentados" (Lc 1,79). Diferente dos profetas que anunciavam a palavra de Deus, Jesus é "a Palavra que se fez carne e habitou em nós" para que todos os homens e mulheres pudessem contemplar a sua glória e dela poderem participar (cf. Jo 1,14). Ele é a Palavra de quem o salmista, profeticamente, cantou em louvor ao Senhor: "tua palavra é lâmpada para os meus pés, e luz para o meu caminho" (Sl 119[118],105). De fato, Jesus é Palavra e também é a luz que ilumina a vida de todos aqueles que o seguem sem medo, conforme Ele diz a seu respeito: "Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida" (Jo 8,12). Depois de ouvir o testemunho externo, Jesus quer saber quem Ele é para os seus discípulos. Pedro, voz da comunidade dos Doze, afirma com fé: "Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo" (Mt 16,16). A fé de Pedro o torna uma pessoa bem-aventurada, pois é assim que o Mestre Galileu refere-se a ele, Simão, filho de Jonas. Pedro recolhendo de Jesus, Palavra viva do Pai, todo o seu amor partilhado durante a viagem, tem o seu coração dilatado pelo Espírito. Desta forma, Pedro reconhece Jesus como o Messias, em grego, Christós² , ou seja, aquele que é ungido pelo Pai e deseja que seu Filho faça o mesmo: derramar a sua unção de salvação para todos os homens e mulheres que estão encarcerados no seu amor egocêntrico e, libertando-os, fazê-los participar do seu amor-ágape. Reconhecido como o "Filho do Deus", tal expressão designa que Jesus não apenas vive a vida de Deus, mas está permanentemente em comunhão com o Pai numa relação filial de profunda intimidade revelando-lhe o seu projeto de amor a ser compartilhado com toda a humanidade.


Na segunda parte do evangelho, Pedro, ao fazer a sua profissão de fé em Jesus recebe Dele a missão de ser o chefe da Igreja. Pedro paulatinamente se deixa construir pela Palavra a fim de que nele, a Igreja de Cristo seja edificada. Além disso, o líder dos apóstolos trará consigo a promessa do seu Senhor de que jamais o poder do inferno poderá vencer a Igreja da qual, após a morte e ressurreição de Jesus, ele será pastor. A autoridade de Pedro como chefe do grupo Doze, está ilustrada nas chaves que recebe para poder "ligar e desligar" nas futuras decisões que tomará dentro da comunidade cristã. Mas isso não significa que ele será chefe com autoridade nos modelos tirânicos do seu tempo. Tal autoridade, enquanto ministro da Igreja, Pedro tem por modelo o Cristo que manifestou em toda a sua vida o serviço ao próximo, pois ele, "o Filho do Homem, não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos" (Mc 10,45).


Hoje, mais do que nunca, vivendo em tempos tão difíceis, precisamos fazer um profundo exame de consciência e deixar que Jesus também nos questione quem é Ele para cada um de nós. Jesus é, de fato, o Cristo que, no dia do nosso batismo, nos ungiu com seu Espírito para vivermos com Ele e Nele a profunda relação filial com o Pai ou Jesus é apenas alguém com quem eu posso barganhar aquilo que tanto desejo ter estabelecendo com Ele uma relação de interesse? Será que Jesus é mais um "curandeiro-taumaturgo" que nos encanta com o exibicionismo operando curas e milagres? presos nessa falsa imagem que construímos de Jesus, permaneceremos encarcerados na idolatria de nós mesmos, vivendo uma profunda ausência da luz de Deus e desorientados nesse mundo sem saber o sentido da vida para a qual fomos criados.


Cristo entregou as chaves da Igreja para Pedro e confiou-lhe toda a autoridade sobre ela. Na primeira leitura, do profeta Isaías, escutamos o Senhor que destituiu Sobna do posto de administrador do palácio do rei. Sua destituição tenha sido sinal do seu orgulho talhando para um si um sepulcro e cavando na rocha uma sepultura para si mesmo (cf. Is 22,16). Tal atitude para alguns exegetas pode ser interpretada que Sobna tinha o desejo de que seu nome ficasse perpetuado, pois esse era o significado de quem construía o seu maozoléu; ou talvez porque Sobna utilizou o dinheiro do povo ocasionando despesas de dinheiro em futilidades num momento difícil para o povo. Por esta razão, Deus elege Eliacim para "levar sobre os seus ombros a chave da casa de Davi" (Is 22,22) outorgando-lhe toda a autoridade de administrar com firmeza o palácio.


No dia em que nascemos, o Pai do céu nos entregou as "chaves" da nossa vida confiando-nos, à medida em que amadurecemos, administrá-la como um dom. Precisamos compreender este dom em todas as dimensões que o cercam de cuidados, a fim de defendê-lo sem luzes de ideologias. Defender a vida inocente que não tem voz por si mesma e que precisa da nossa voz para que seja salvaguardado o seu direito de viver. Assim como é preciso defender a vida daqueles que vivem em condições sofrendo o risco de desumanização, por exemplo, a falta de saneamento básico em muitas periferias, o desemprego, a ausência de uma educação pública de qualidade, a precariedade de atendimentos nos hospitais, a violência urbana, o preconceito que gera ódio e marginalização. Enfim, é importante termos a consciência de que todos nós somos responsáveis uns pelos outros e essa é “chave” que o Cristo nos entrega nesta eucaristia: a “chave” para amar. Confiantes, portanto, de que o Senhor não deixará inacabada a obra que fizeram suas mãos (cf. Sl 137 [138],8c), que o seu Espírito faça crescer e multiplicar dentro de nós "a esperança que não decepciona porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações" (Rm 5,5). Diante das inúmeras provações que experimentamos, possamos, neste domingo, dia da ressurreição do Senhor, professar com coragem a nossa fé em Cristo dizendo como Pedro: "Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo" (Mt 16,16).


Ao nosso Deus toda honra e toda a glória pelos séculos dos séculos.


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¹ FRANCISCO, Papa. Misericordiae Vultus, 2.

² RUSCONI, C. Dicionário do Grego do Novo Testamento, p. 497.


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