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Homilia Padre Eufrázio - 22º Domingo do Tempo Comum

"Quem perder a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la" (Mt 16,25)


Pe. Eufrázio Morais

Leituras:

1ª Leitura - Is 20,7-9 Salmo

Sl 62,2.3-4.5-6.8-9 (R.2b)

2ª Leitura - Rm 12,1-2

Evangelho - Mt 16,21-27



Nesta Eucaristia dominical pedimos ao Senhor, na oração coleta, que derrame em nossos corações o seu amor e que estreite os laços que nos unem a Ele. Tal pedido revela que muitas vezes, a exemplo de Adão e Eva, queremos viver independentes de Deus buscando neste mundo nossa própria autonomia.


Orientados pelas nossas vontades rebeldes, ficamos apartados do amor divino e o resultado das desordens que construímos é o cansaço físico e a alma abatida. Todavia, reconhecendo que não conseguimos dar conta de vivermos por nós mesmos, expressamos como o salmista: "A minha alma tem sede de vós, minha carne também vos deseja, como terra sedenta e sem água!" (Sl 62,2). Diante do reconhecimento do nosso abatimento físico e da nossa aridez espiritual, o Pai derrama o seu amor em nossos corações com a sua Palavra, remédio curativo daqueles que se encontram feridos por tantas quedas. Com a mesma Palavra, o Divino Espírito nos estreita novamente a vivermos unidos ao Pai exclamando com alegria que o "vosso amor vale mais do que a vida" (Sl 62,4).


Na primeira leitura, encontramos o profeta Jeremias que foi convocado por Deus e provocado pela sua Palavra. Jeremias, exercendo seu ministério profético em Jerusalém, denunciou inúmeras vezes as injustiças que estavam acontecendo aos israelitas. Muitas delas são frutos das infidelidades dos reis que deveriam conduzir o povo de Deus na observância da Aliança e no temor do Senhor. Contudo, os maus exemplos dos líderes que governavam o povo à morte e não à vida, foram alvo do seu anúncio profético, sobretudo Sedecias que, no contexto da leitura que estamos tendo contato, é o rei que está no trono de Judá, em Jerusalém. Tal rei segue a velha política do rei Joaquim que o havia antecedido, fazendo aliança com nações estrangeiras, particularmente com o Egito. Ao estabelecer aliança com o rei do Egito para que defendesse Jerusalém dos babilônios que eram governados pelo Rei Nabucodonosor, Sedecias demonstra que confia muito mais na força do homens do que na força do próprio Deus. Jeremias inúmeras vezes vai chamar a atenção pelo perigo que se colocam não sendo fiéis à Aliança. Contudo, nem o rei e nem os notáveis do seu tempo deram crédito a sua palavra. A voz do profeta que no início do seu ministério apelava aos seus irmãos o abandono ao pecado e à conversão, agora parece reafirmar que este povo "trocou a glória de Deus pelo que nada vale, abandonou o Senhor, fonte de água viva, para cavar para si cisternas furadas, que não podem conter água" (Jr 2,11b.13). As palavras de Jeremias, que não agradam aos ouvintes de seu tempo, vão lhe custar muito caro e será o preço da sua própria vida. Em razão de ser fiel à Palavra de Deus, sofrerá muitas perseguições.


Neste texto que é parte de uma grande seção (Jr 20,7-18) descrita como "confissões de Jeremias", estamos meditando o lamento do profeta que se sente traído por Deus. O Senhor é acusado por Jeremias de tê-lo seduzido como alguém que seduz uma virgem que não estava prometida em casamento (cf. Ex 22,15). Sofrendo o escárnio e zombaria o dia inteiro da parte dos homens (cf. Jr 20,7), Jeremias parece sentir-se arrependido de ter aceitado a missão e respondido afirmativamente ao chamado divino. A Palavra de Deus anunciada por Jeremias proclamava contra a maldade e invocava calamidades. Tal Palavra tornou-se para o profeta "uma fonte de vergonha e de chacota o dia inteiro" (Jr 20,8). Parecendo desistir do chamado de Deus, Jeremias é golpeado por um fogo ardente que ele mesmo, sem forças, não consegue suportar (Jr 20,9).


A tentação de voltar atrás depois de dar uma resposta na qual assumimos uma grande responsabilidade é uma experiência de todos os seres humanos. Muitas vezes nos sentimos arrependidos por ter assumido o compromisso com alguém, cujo resultado foi apenas frustrações e decepções. Começamos com essas experiências a dar espaços às nossas queixas e lamúrias contra o Senhor e contra nós mesmos.


No Evangelho deste domingo narrado por Mateus, aprendemos do mestre galileu que o chamado que Ele nos fez e continua fazendo-nos, não será um caminho de sucessos e de glórias que esperamos alcançar nesta vida. O texto evangélico proclamado neste domingo (Mt 16,21-27) pode ser dividido em duas partes: a primeira relata o protesto de Pedro ao anúncio da paixão (Mt 16,21-23); a segunda, Jesus apresenta as condições daqueles que querem ser seus discípulos e o anúncio da vinda escatológica do Filho do Homem (Mt 16,24-27).


Na primeira parte vemos o evangelista que narra um novo início de peregrinação de Jesus com seus discípulos. Em Mt 4,17, Jesus inicia sua missão pregando na região da Galiléia. Em Mt 16,21, o evangelista deixa claro que Jesus dá início a um novo caminho mostrando ao grupo dos doze que devia ir Jerusalém, cidade que mata os profetas (cf. Mt 23,37). É nesse lugar que Jesus levará a bom termo a sua vocação e missão: Ele vai "sofrer muito da parte dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos mestres da Lei, e que devia ser morto e ressuscitar no terceiro dia" (Mt 16,21). A partir desse momento, Jesus revela o seu destino enquanto Messias e Filho de Deus, conforme foi proclamado por Pedro no último domingo. Entretanto, o mesmo discípulo que proclama sua fé em Jesus como o ungido do Pai, agora desconhece o verdadeiro messianismo de Jesus e começa a repreendê-lo dizendo: "Deus não permita tal coisa, Senhor! Que isso nunca te aconteça!" (Mt 16,22). Pedro reproduz com a sua palavra a imagem da terceira tentação de Jesus no deserto que é ostentada pelo esplendor dos reinos deste mundo (cf. Mt 4,8). Não aceitando o destino que seu mestre acaba de revelar, "a resposta de Jesus é duríssima: 'ypage opiso mou, satanã': 'retira-te de mim, Satanás'. A expressão usada 'opiso mou': 'após mim' lembra, sem dúvida, ao discípulo a sua obrigação de 'seguir' o seu mestre (cf. Mt 4,18). Mas naquele momento ele era para o seu mestre como Satanás, isto é, um tentador, conforme a etimologia do nome"¹ . Pedro precisava compreender, com a mente e o coração, que os discípulos não podem exigir que Jesus seja a sua imagem e semelhança, mas o contrário é que se faz necessário, ou seja, o discípulo deve deixar-se construir pelo Espírito de Deus a fim de ser a imagem e semelhança do Mestre. Para que isto aconteça é importante não pensar com a lógica deste mundo que fortemente nos mantém com os corações encarcerados em nosso egocentrismo. Acerca disso, disse o profeta: "meus pensamentos não são os vossos pensamentos, e vossos caminhos não são os meus caminhos, oráculo de Iahweh. Quanto os céus estão acima da terra, tanto os meus caminhos estão acima dos vossos caminhos e meus pensamentos estão acima dos vossos pensamentos" (Is 55,8-9).


Na segunda parte, o evangelista Mateus narra que Jesus mostra aos discípulos as condições para segui-lo: "opiso mou", isto é, "após mim". Antes das condições do seguimento ao discipulado, Jesus deixa claro que é uma resposta pessoal e livre para quem deseja ser seu discípulo ao dizer "se alguém quer me seguir" (Mt 16,24). Ele não obriga ninguém para segui-lo. No entanto, para ser discípulo do Senhor necessário se faz acolher três imperativos expostos por Jesus: "renuncie a si mesmo", "tome a sua cruz" e "siga-me". Esses imperativos acolhidos de forma irrestrita são o caminho daqueles que renunciaram seus projetos pessoais por causa de Cristo e da sua Palavra.

No entanto, aquele que, por Cristo, perde a sua vida, vai encontrá-la (cf. Mt 16,25) de uma nova forma: a vida ressuscitada como dom do seu amor pascal.


Estimados irmãos e irmãs, ao discípulo de Cristo é importante ter diante de si a realidade do caminho que o Senhor trilhou. Esse caminho é exigente e por isso as renúncias são deveras importantes. Renunciar a si mesmo é o primeiro passo para nos assemelharmos a Jesus, nosso Mestre. Ele é ícone dessa atitude de renúncia e muito bem recordado pelo apóstolo Paulo ao expor o hino da kénosis do Filho de Deus: "Embora fosse de divina condição, Cristo Jesus não se apegou ciosamente a ser igual em natureza a Deus Pai. Porém esvaziou-se de sua glória e assumiu a condição de um escravo, fazendo-se aos homens semelhante. Reconhecido exteriormente como homem, humilhou-se obedecendo até à morte, até a morte de cruz" (Fl 2,6-8). Somente renunciando as próprias vontades é que nos será possível tomar a nossa cruz pessoal e, com os nossos passos, seguir os passos Daquele que nos amou primeiro.


Afinal, "que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, mas perder a sua vida? O que poderá dar em troca de sua vida? (Mt 16,26). É na cruz que os discípulos de Cristo, são forjados, no Espírito, à imagem e semelhança de Deus. Muitas vezes desconhecemos que desde o dia em que fomos batizados a cruz se faz presente em nossas vidas como um dom inerente à nossa identidade filial. A cruz é como um espelho onde todos os que nela se observam, além das feridas e dores do Crucificado, veem a própria imagem marcada de feridas e dores pessoais, cada um com a sua própria história. Contudo, a cruz, observada pela ótica da esperança, faz crescer em nós a alegria de ouvir que depois de tantas dores, sofrimentos e experiências de morte por causa do nome de Cristo, também com Ele ressuscitaremos. "Porque o Filho do Homem virá na glória do seu Pai, com seus anjos, e então retribuirá a cada um de acordo com a sua conduta" (Mt 16,27).


Celebrando nossa páscoa semanal, que este dia do Senhor nos favoreça com o dom da fortaleza para enfrentarmos os desafios que a nossa cruz de cada dia nos impõe sem voltar atrás. Qual é a cruz que hoje nos acompanha pessoalmente e que nos provoca pavor e medo? Pode ser uma doença pessoal ou de alguém que amamos e tememos a sua perda. Pode ser o cônjuge que foi idealizado uma pessoa, mas na realidade é outra. Pode ser o próprio filho ou filha pelos caminhos que cada um escolheu. Pode ser o desemprego que tanto tempo nos persegue como uma sombra. A cruz se apresenta de variadas formas, mas em todas elas está a oportunidade, como sacerdotes pelo batismo, de nos oferecermos "em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus", conforme ouvimos o apóstolo Paulo na segunda leitura (cf. Rm 12,2).


Em todas essas formas que a cruz se manifesta ali se revela o lugar de ofertar, ao Pai, pelo Cristo, no Espírito, o nosso culto espiritual. Portanto, através deste culto ofertado na dor e com amor, poderemos testemunhar o verdadeiro discipulado de Cristo cantando como o salmista: "Para mim fostes sempre um socorro, de vossas asas à sombra eu exulto! Minha alma se agarra em vós; com poder vossa mão me sustenta" (Sl 62,8-9). É na cruz que o Pai responde ao nosso pedido inicial de estreitar os laços que nos unem a Ele derramando em nossos corações o seu amor.


Ao nosso Deus toda honra e toda a glória pelos séculos dos séculos.


 

¹ BOUZON, E., ROMER, K. J. A Palavra de Deus - No anúncio e na oração. Ano A. p.315.

1 Comment


Bela Homilia! Muito atual, e vai de encontro ao nosso modo de viver.

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