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Homilia Pe. Eufrázio - 2º Domingo da Quaresma - Ano B


Leituras:


1ª Leitura - Gn 22,1-29a.10-13.15-18. Salmo - Sl 115,10.15.16-17.18-19 (R. Sl 114,9).

2ª Leitura - Rm 8,31-34.

Evangelho - Mc 9,2-10.


Nesse Domingo, continuamos a nossa caminhada quaresmal e, conforme afirma São João Paulo II, "O domingo revela-se como o dia da fé por excelência" [1] . Diante dos desafios que encontramos em nossa vida, a fé é o dom que nos encoraja a colocar toda a nossa confiança nas mãos do Pai. Quando agimos dessa maneira, ficamos surpreendidos com tanta bondade que Ele manifesta em nosso favor.


No entanto, muitas vezes somos tentados a confiar apenas em nossas próprias forças e, assim, confirmamos cada vez mais a nossa autossuficiência. Agindo desse modo, precisamos purificar o olhar de nossa fé sobre a realidade que nos cerca. Uma das maneiras de purificá-lo é escutando com atenção a Palavra de Deus. Dela, o salmista dá o seu testemunho quando diz: "Vossa Palavra é luz para os meus passos, é uma lâmpada luzente em meu caminho" (Sl 118[119],105).


Por isso, nessa Eucaristia, pedimos ao Pai que Ele nos alimente com a sua Palavra a fim de que nos alegremos com a visão de sua glória.


Escutamos na primeira leitura um texto que faz parte de um bloco chamado "tradições patriarcais" (Gn 12-36). Nele, ouvimos a história de Abraão na qual é narrado o sacrifício de Isaac, filho da promessa. No início do texto, escutamos o autor sagrado dizendo que Deus colocou Abraão à prova. (cf. Gn 22,1). Respondendo ao chamado de Deus, Abraão recebe uma ordem: "Toma teu filho único, Isaac, a quem tanto amas, dirige-te à terra de Moriá e oferece-o aí em holocausto sobre um monte que eu te indicar" (Gn 22,2).


Ouvindo esta ordem da parte de Deus, Abraão obedece e segue seu caminho em silêncio. Dirigindo-se para o monte, não duvidamos da dor que tomou conta do coração de Abraão. No entanto, por amor a Deus, ele sacrificará o que ele mais ama nesse mundo. Nesse texto, cabe-nos ter os mesmos sentimentos de dor em relação a um pai que sofre por ter que sacrificar o filho que recebeu todo o seu amor .


Interrogado por Isaac, a fim de saber onde estaria o cordeiro para o sacrifício, Abraão responde: "É Deus quem proverá o cordeiro para o holocausto, meu filho" (cf. Gn 22,8). A dor do coração de Abraão é transfigurada gradativamente pela sua fé. Ele coloca sua confiança em Deus e segue o caminho colocando em prática a ordem que ouviu.


Depois de ter chegado em Moriá, no monte que Deus havia indicado (cf. Gn 22,2), Abraão construiu um altar para o sacrifício. "Em 2Cr 3,1 é a única outra ocorrência deste nome, e identifica Moriá com o monte de Jerusalém, onde Salomão construiu o templo; Abraão é, então, o primeiro a adorar ali"[2] . Ele está pronto para oferecer Isaac, que tanto ama, como sinal de sua obediência e também da sua adoração a Deus.


É provável que nos perguntemos o motivo pelo qual Abraão, sem hesitar, oferece o seu filho como sacrifício. Talvez, também nos questionemos: Que Deus é esse que pede a Abraão para matar Isaac? Precisamos recordar que Abraão é mesopotâmico. "Os sacrifícios de crianças era uma prática bastante comum em Canaã e nas colônias fenícias do norte da África. Em tempos críticos, tais como tentativas de desviar a ira divina, eles eram praticados até em Israel (cf. 2 Rs 16,3)" [3] . O que difere, portanto, nesse momento, é se Abraão, conhecendo o Deus que criou o céu e a terra, confia e acredita no Senhor que é o autor da vida e não da morte.


Vendo que Abraão está com as mãos estendidas para sacrificar Isaac, Deus intervém pela voz do anjo evitando o mal contra o menino. Assim, Deus reconhece a total obediência de Abraão e que ele verdadeiramente o teme por não recusar seu único filho que tanto ama (cf. Gn 22,10-12).


A Igreja interpreta o sacrifício de Abraão à luz da leitura cristológica. Isaac é a prefiguração daquilo que o Pai realizaria em seu Filho, o Cristo. Conforme afirma o apóstolo dos gentios, "Deus, que não poupou seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós" (Rm 8,32), também o ressuscitou dentre os mortos a fim de nos garantir a verdadeira vida.


Essa vida verdadeira nós a contemplamos no Evangelho narrado por Marcos no episódio da transfiguração de Jesus (Mc 9,2-10). Ainda que o nome do monte não seja mencionado no texto bíblico, a tradição cristã costuma identificá-lo com o nome de monte Tabor. Tal episódio está associado ao primeiro anúncio da Paixão (cf. Mc 8,31-33). Até aqui, os discípulos de Jesus o reconhecem como Messias. Contudo, eles identificam Jesus como Messias numa perspectiva política, isto é, de libertar Israel das nações estrangeiras, particularmente dos opressores romanos, manifestando o seu triunfo humano.


No entanto, Jesus, depois de ter instruído os seus discípulos sobre as condições para segui-lo (cf. Mc 8,34-38) e vendo-os frustrados com a missão do Filho do Homem, "tomou consigo Pedro, Tiago e João, e os levou sozinhos a um lugar à parte sobre uma alta montanha. E transfigurou-se diante deles" (Mc 9,2). O contexto da transfiguração narrado pelo evangelista Marcos tem como objetivo apresentar Jesus como o novo Moisés. No episódio da Aliança no Sinai, Moisés faz uma profunda experiência de comunhão com Deus. Ao descer da montanha com as tábuas da Lei em suas mãos, Moisés tinha a sua pele e o seu rosto resplandecentes (cf Ex 34,29-30).


"No silêncio do monte, Jesus se transfigura diante dos seus discípulos. A mudança é descrita pelo verbo metemorphóte: 'foi transfigurado'. Este verbo descreve uma ação de Deus em Jesus. Deus revela a glória de Jesus a seus discípulos. Não se trata de uma metamorfose no sentido helenista do termo. Deve-se compreender o termo em uma linha apocalíptica. Jesus aparece a seus discípulos na glória da ressurreição (cf. 1Cor 15,15s)". [4]


Durante a transfiguração, Moisés e Elias aparecem conversando com Jesus sobre os acontecimentos que culminariam na sua obra redentora. Ambos personagens são muito valiosos para a tradição bíblica do AT e, juntos, representam a Lei e os Profetas.


Diante desse fenômeno, os discípulos estão estupefatos por testemunharem a glória de Deus. A partir da visão beatífica que contemplam, Pedro é provocado pela admiração de tudo aquilo que vê. Tomando a palavra, ele diz: "Mestre, é bom ficarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias" (Mc 9,5). As tendas que Pedro deseja construir faz uma alusão à "Festa das Tendas", celebrada no tempo do êxodo quando o povo hebreu havia habitado em tendas no deserto. Pedro interpreta de forma equivocada a transfiguração de Jesus achando que ela se prolongará nesse mundo. Na verdade, tal fenômeno é apenas uma antecipação da glória futura.


Em seguida, obervamos a nuvem que desce até o monte. Ela encobre os discípulos que estão tomados pelo medo. A nuvem é uma das teofanias do AT que expressa o sinal da presença de Deus junto ao seu povo (cf. Ex 24,26; 40,35). Dessa nuvem, uma voz proclama e revela: "Este é o meu Filho amado. Escutai o que Ele diz!" (Mc 9,7). Os três discípulos escutam a voz de Deus. Nesse texto da transfiguração, a voz do Pai nos faz recordar a cena do batismo de Jesus onde Ele dá o testemunho sobre o seu Filho (cf. Mc 1,11). Porém, aqui vemos o acréscimo da expressão "escutai o que Ele diz". Tal expressão faz uma alusão ao texto do Dt 18,15 em que Moisés é apresentado como profeta e que Deus suscitará um profeta como ele no meio do seu povo. Em outras palavras, tal como os hebreus teriam que escutar a voz de Moisés que os libertou do Egito, os discípulos terão que ouvir a voz do Filho de Deus para que sejam libertados de suas falsas expectativas acerca da sua identidade messiânica.


A perícope é concluída com os discípulos que se encontram apenas com a presença de Jesus (cf. Mc 9,8). Marcos acrescenta um elemento preponderante na teologia do seu evangelho: o segredo messiânico. Por isso, "ao descerem da montanha, Jesus ordenou que não contassem a ninguém o que tinham visto, até que o Filho do Homem tivesse ressuscitado dos mortos. Eles observaram essa ordem, mas comentavam entre si o que queria dizer “ressuscitar dos mortos". (Mc 9,9-10). Na escola do discipulado de Jesus, Pedro, Tiago e João, gradativamente serão inseridos na vida do seu Mestre por meio de seus gestos e palavras. Paulatinamente serão introduzidos no mistério pascal. Precisarão seguir os mesmos passos de Jesus, isto é, do sofrimento e da morte a fim de experimentar o mistério da transfiguração do Senhor em suas vidas.


Estimados irmãos e irmãs, Cristo é o novo Isaac oferecido pelo Pai em expiação pelos nossos pecados. A sua transfiguração é a meta de todos os filhos de Deus e para ela fomos criados. Todos nós alcançaremos essa vida transfigurada depois de termos feito a mesma experiência do Filho do Homem que, na sua carne, experimentou a dor e sofrimento.


Nessa Eucaristia dominical, repetimos a voz de Pedro dizendo: "Mestre, é bom ficarmos aqui" (Mc 9,5). O evento da transfiguração de Jesus, imagem da glória de Deus, é o desejo do nosso coração. No entanto, somos tentados em ficarmos contemplando a imagem da glória de Deus esquecendo-nos da realidade que está ao nosso redor. Precisamos descer do monte Tabor e, seguindo os passos de Jesus, subirmos com Ele num outro monte: o monte Calvário. Nesse lugar, a glória de Deus também se manifesta, porém, de outra forma. No calvário, a glória de Deus encontra-se velada no rosto do seu Filho crucificado.


Enveredando os nossos passos no seguimento de Jesus, o Pai do céu não deixará de cuidar de cada um de nós. Assim como Ele manifestou o seu carinho aos discípulos concedendo-lhes contemplar antecipadamente a meta da vida cristã, Ele age conosco da mesma maneira. Em meio ao calvário da nossa existência, ilustrado pelo luto em que vivemos, pela doença de alguém que amamos, pelo desemprego que gera angústia e aflição, pela dor da traição do cônjuge ou de um amigo, o Senhor sempre nos recordará que "os sofrimentos do tempo presente não têm proporção com a glória que se revelará em nós" (Rm 8,18).


Portanto, iluminados pela Palavra, acolhamos nessa Quaresma o exemplo de Abraão que ofereceu a Deus seu único filho que tanto amava para ser sacrificado. Guiados pelo Espírito, imitemos o exemplo de Jesus, pois Ele também colocou nas mãos do Pai toda a sua vida como sacrifício em nosso favor. Tenhamos a certeza de que no Pai está o nosso refúgio e fortaleza.


Nesse tempo quaresmal, coloquemos no altar de Deus aquilo que tanto amamos e que também precisa ser sacrificado. No altar, o Espírito Santo, que transfigura as espécies do pão e do vinho no corpo e no sangue de Jesus, também transfigurará todas as nossas realidades de morte em vida. Diante do altar de Deus, digamos com fé: "em vossa mão, Senhor, se encontra a força e o poder, em vossa mão tudo se afirma e tudo cresce!" (1Cr 29,12).


Ao nosso Deus toda honra e toda a glória pelos séculos dos séculos.

 

[1] JOÃO PAULO II, Carta Apostólica Dies Domini, n.29.

[2] CLIFFORD, R. J; MURPHY, R. E., Novo Comentário Bíblico São Jerônimo - Antigo Testamento, p. 93.

[3] CLIFFORD, R. J; MURPHY, R. E., Novo Comentário Bíblico São Jerônimo - Antigo Testamento, p. 93.

[4] BOUZON, E., ROMER, K. J. A Palavra de Deus - No anúncio e na oração. Ano B. p. 94.

2 Comments


Bela Catequese sobre a Transfiguração de Jesus! Esta Homilia nos transportou ao monte e nos fez acreditar no Amor do Pai por nós. Que vivamos rumo a este encontro sendo misericordiosos como o Pai é misericordioso. Parabéns Pe. Eufrázio!

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