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Homilia Pe. Eufrázio - 24º Domingo do Tempo Comum - Ano B


Leituras:


1ª Leitura - Is 50,5-9a

Salmo - Sl 114, 1-2.3-4.5-6.8-9 (R.9)

2ª Leitura - Tg 2,14-18

Evangelho - Mc 8,27-35



No domingo, dia da ressurreição do Senhor, todos os cristãos celebram o dom da fé. Acerca desse dia salvífico, dizia São João Paulo II: "O domingo revela-se como o dia da fé por excelência. Nele, o Espírito Santo, 'memória' viva da Igreja (cf. Jo 14,26), faz da primeira manifestação do Ressuscitado um evento que se renova no 'hoje' de cada um dos discípulos de Cristo. Encontrando-O na assembleia dominical, os crentes sentem-se interpelados como o apóstolo Tomé: "Chega aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; aproxima a tua mão e mete-a no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente" (Jo 20,27). Sim, o domingo é o dia da fé.1 Com a exortação do Santo Pontífice, somos convidados em deixar que o Espírito de Deus, por meio da Palavra do Ressuscitado, toque as feridas da nossa incredulidade e do nosso egoísmo transfigurando-nos numa hóstia de louvor e de compaixão.


No Evangelho de Marcos proclamado em nossa liturgia dominical, estamos tendo contato com o primeiro anúncio da paixão. Ele integra um grande bloco literário (Mc 8,27-10,52) onde estão presentes outros dois anúncios da paixão. No texto evangélico que ouvimos, podemos contemplá-lo em três partes: Na primeira parte, Jesus indaga aos discípulos acerca da sua identidade revelando-lhes a sua missão nesse mundo (cf. Mc 8,27-31). Na segunda parte, vemos um diálogo entre Jesus e Pedro que é severamente repreendido pela sua insensatez (cf. Mc 8,32-33). Por fim, o evangelista apresenta Jesus que expõe as condições para ser seu discípulo (Mc 8,34-35).


Inicialmente, Marcos narra que Jesus, caminhando com seus discípulos para os povoados de Cesareia de Filipe, quer saber o que dizem os homens a respeito dele. A partir do testemunho de fora, começam a apresentar várias identidades à pessoa de Jesus, por exemplo, "Alguns dizem que tu és João Batista; outros que és Elias; outros, ainda, que és um dos profetas" (Mc 8,28). Esses personagens trazem consigo uma característica muito comum entre eles: o profetismo. O testemunho de fora, isto é, dos homens que julgam Jesus ser um profeta, denota que Ele, tal como os profetas citados, tem uma palavra que "ilumina os que jazem nas trevas e na sombra da morte estão sentados" (Lc 1,79). Contudo, diferente dos profetas que anunciavam a palavra de Deus e preparavam os caminhos do Senhor, Jesus é "a Palavra que se fez carne e habitou em nós" para que todos os homens e mulheres pudessem contemplar a sua glória e dela participar (cf. Jo 1,14). Ele é a Palavra de quem o salmista, profeticamente, cantou: "tua palavra é lâmpada para os meus pés, e luz para o meu caminho" (Sl 118,105). De fato, Jesus é a Palavra, é o "caminho" (cf. Jo 14,6) e é a luz que ilumina os passos de todos aqueles que o seguem, conforme Ele diz a seu respeito: "Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida" (Jo 8,12).


Depois de ouvir o testemunho externo, Jesus quer saber quem Ele é para os seus discípulos. Pedro, como porta voz da comunidade dos Doze, afirma: "Tu és o Messias" (Mc 8,29). Pedro reconhece Jesus como o Messias, em grego, Christós2, ou seja, aquele que é ungido por Deus para realizar uma missão de libertação. "Originalmente, o 'Messias' era o rei davídico ou qualquer outro ungido como os sacerdotes, os profetas etc. Aos poucos, o título adquiriu um significado técnico: começou a designar o rei davídico ideal que deveria salvar e restabelecer Israel em sua glória escatológica. Esta concepção predominou a partir do exílio da Babilônia"3.


Em seguida, proibindo severamente de dizer a seu respeito, o Senhor revela aos seus discípulos a sua identidade. Para o grupo dos Doze, Ele é o "Messias". Jesus, no entanto, se autodenomina como o "Filho do Homem", um título apocalíptico isento de características político-nacionalistas presentes no termo proclamado por Pedro. A missão do Filho do Homem consiste passar pelo sofrimento, pela rejeição das autoridades judaicas, pela morte e pela ressurreição no terceiro dia. Em outras palavras, essa é a missão de Jesus e prefigurada pelo profeta: "O Senhor abriu-me os ouvidos; não lhe resisti nem voltei atrás. Ofereci as costas para me baterem e as faces para me arrancarem a barba; não desviei o rosto de bofetões e cusparadas. Mas, o Senhor Deus é meu Auxiliador" (Is 50,5-7). Essa figura misteriosa apresentada no "terceiro canto do servo sofredor" receberá pleno cumprimento em Cristo. Ele é o servo de sofredor que colocou nas mãos do Pai toda a sua confiança.


Na segunda parte do Evangelho, após Jesus dizer abertamente a sua identidade e sua missão, "Pedro tomou Jesus à parte e começou a repreendê-lo" (Mc 8,32). Pedro, de forma violenta, repreende Jesus e recusa aceitar que a sua missão nesse mundo passe pelo sofrimento e a morte. Repreendendo o seu Mestre, ele se mostra absolutamente "cego" e "surdo". Pedro não é capaz de enxergar com clareza a vontade salvífica do Pai para o seu Filho. Por não ouvir bem, ele parece ignorar que, depois do sofrimento e da morte, em três dias, Jesus, o Filho do Homem, ressuscitará. Essa reação de Pedro revela a falsa concepção messiânica dos discípulos. No texto grego, encontramos o verbo hepitimáo4 que expressa o modo com o qual Pedro tratou o seu Mestre, isto é, repreendendo-o. É o mesmo verbo utilizado no episódio em que Jesus repreende o espírito impuro que possuía um homem na sinagoga de Cafarnaum (cf. Mc 1,25). Pedro tenta "exorcizar" Jesus, mas é Jesus quem "exorciza" Pedro, dizendo-lhe: "Vai para longe de mim, Satanás! Tu não pensas como Deus, e sim como os homens" (Mc 8,33).


Tentando afastar os planos de Deus na vida de Jesus, Pedro revela a sua insensatez. Repreendido e colocando-se no seu lugar, isto é, atrás do Mestre, Pedro terá que aprender novamente tudo o que Jesus ensinou ao longo do seu caminho. Somente dessa forma ele conseguirá abandonar os pensamentos humanos para pensar segundo os critérios de Deus, como disse o profeta: "Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos, os meus caminhos, diz o Senhor. Porque, assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos, mais altos do que os vossos pensamentos. (Is 55,8-9).


Depois de repreender Pedro, na última parte do Evangelho, Jesus convoca a multidão com os seus discípulos e apresenta as condições para segui-lo: "Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga" (Mc 8,34). Aqui, são destacados três verbos que denotam um autêntico discipulado. Renunciar a si mesmo, tomar a cruz e seguir Jesus. Renunciar a si mesmo implica, da parte do discípulo, um esvaziamento pessoal, uma abnegação da própria vontade para acolher a vontade de Deus. Esse movimento de esvaziamento foi ilustrado de forma surpreendente pelo apóstolo Paulo no hino à kénosis de Cristo (cf. Fl 2,6-11). De fato, a renúncia de si mesmo, conforme testifica os relatos evangélicos e o testemunho paulino, é condição sine qua non para tomar a cruz. O discípulo de Jesus que se esvazia das suas vontades pessoais para acolher o plano de Deus, olhará para a cruz não como objeto de maldição, mas como instrumento de santificação que conduz à salvação. Aqui, a missão do discípulo é iluminada pela cruz alcançando, pois, o seu verdadeiro significado. Apenas dessa maneira, será possível seguir Jesus conformando-se com a sua vida de doação total sem desconhecer a hostilização que Ele sofreu. É nesse sentindo que conseguiremos entender o que Ele disse: "quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas, quem perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho, vai salvá-la" (Mc 8,35).

Amados irmãos e irmãs, reunidos para celebrar o Ressuscitado, somos convocados para entrar na escola do discipulado de Jesus. Isso exige de nós um novo pensamento acerca da sua pessoa. Assim, precisamos fazer uma revisão de vida e nos interrogarmos quem é Jesus para cada um de nós. Ele, de fato, é o Cristo que, no dia do nosso batismo, nos ungiu com seu Espírito para vivermos Nele e com Ele a profunda relação filial com o Pai e uma profunda relação de vida solidária em favor do outro? Ou Jesus é apenas alguém com quem eu posso barganhar aquilo que tanto desejo, estabelecendo com Ele uma relação de interesse? Pior ainda, será que Jesus é para nós apenas um "curandeiro-taumaturgo" que nos encanta com o exibicionismo operando curas e milagres? Inúmeras vezes, como Pedro, também repreendemos o Senhor ordenando o que Ele tem que fazer por nós e em nosso benefício. Em outras palavras, queremos uma vida sem a cruz. Presos nessas falsas imagens que construímos sobre o Filho de Deus, permaneceremos encarcerados na idolatria de nós mesmos, vivendo uma profunda ausência da luz de Deus e desorientados nesse mundo sem saber o sentido da vida para a qual fomos criados.


As condições exigidas para entrar no discipulado de Jesus – renunciar a si mesmo, tomar a cruz e seguir Jesus – exige de todos nós o exercício do dom da fé. Esta, por sua vez, não pode ser compreendida somente como uma proclamação da oração do Credo feita com os lábios. Ao contrário, é o Credo testemunhado concretamente por meio de nossas ações. Afinal, "que adianta alguém dizer que tem fé, quando não a põe em prática? se não se traduz em obras, por si só está morta" (Tg 2,14.17). Diante das adversidades que a vida nos impõe, não nos esqueçamos que o Pai é o nosso Auxiliador. Ele está ao nosso lado e não sairemos humilhados (cf. Is 50,7). Olhando para as dificuldades que vivemos, Ele derrama sobre os nossos corações feridos a unção do seu Espírito a fim de nos fazer participantes do seu amor-ágape. Reconciliados pelo amor pascal, podemos testemunhar como o salmista: "Eu amo o Senhor, porque ouve o grito da minha oração. Libertou minha vida da morte, enxugou de meus olhos o pranto e livrou os meus pés do tropeço. Andarei na presença de Deus, junto a ele na terra dos vivos" (Sl 114,1.8-9).


Ao nosso Deus toda honra e toda a glória pelos séculos dos séculos.

 

1 JOÃO PAULO II, Carta Apostólica Dies Domini, n.29.

2 RUSCONI, C. Dicionário do Grego do Novo Testamento, p. 497.

3 BOUZON, E., ROMER, K. J. A Palavra de Deus - No anúncio e na oração. Ano B. p. 324.

4 RUSCONI, C. Dicionário do Grego do Novo Testamento, p. 195.



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