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Homilia Pe. Eufrázio - 25º Domingo do Tempo Comum - Ano A

Atualizado: 24 de set. de 2020

"Ou estás com inveja, porque estou sendo bom?" (Mt 20,15)


Leituras: 1ª Leitura - Is 55,6-9 Salmo

Sl 144,2-3.8-9.17-18 (R.18a)

2ª Leitura - Fl 1,20c-24.27a

Evangelho - Mt 20,1-16a


"Todos os dias haverei de bendizer-vos, hei louvar o vosso nome para sempre" (Sl 144,2). Nesse cântico de ação de graças entoado pelo salmista reconhecemos que não há um dia determinado para bendizer o Senhor, ao contrário, todos os dias é dia de bendizê-lo. No entanto, para nós, cristãos, há um dia que emana para os demais dias toda a sua força de gratidão: o domingo, dia da esperança. "Deste ponto de vista, se o domingo é o dia da fé, é igualmente o dia da esperança cristã. De fato, a participação na "ceia do Senhor" é antecipação do banquete escatológico das "núpcias do Cordeiro" (Ap 19,9)(1) . No domingo, a esperança cristã resgata o consolo interior que perdemos diante de tantas labutas que tivemos ao longo da semana multiplicando em nós muitas frustrações e murmurações. Além disso, nesse dia salvífico, em tempos tão difíceis que todos estão vivendo, a esperança cristã faz-nos experimentar que "o Senhor é muito bom para com todos, sua ternura abraça toda criatura" (Sl 144,8). Nessa eucaristia, a bondade e a ternura de Deus se manifestam singularmente através da sua Palavra proclamada.


Escutamos na primeira leitura o autor sagrado, conhecido como Deutero-Isaías(2) , exercendo sua vocação profética entre os judeus que estão exilados na Babilônia trazendo-lhes um anúncio de esperança. O exílio foi um evento muito humilhante na história dos israelitas. Estes pensavam que o Senhor os abandonou naquela terra estrangeira onde muitos judeus sofriam a tristeza em seus corações com o escárnio dos babilônios conforme ilustra o salmista: "Junto aos rios da Babilônia nos sentávamos chorando, com saudades de Sião. Nos salgueiros por ali penduramos nossas harpas. Pois foi lá que os opressores nos pediram nossos cânticos; nossos guardas exigiam alegria na tristeza: 'Cantai hoje para nós algum canto de Sião!' Como havemos de cantar os cantares do Senhor numa terra estrangeira?". A Babilônia foi o lugar onde muitos judeus se acomodaram e ali estabilizaram as suas vidas (cf Is 55,2). Outros, por sua vez, recordavam as lembranças de suas vidas em sua pátria e nelas, alimentavam uma sombra de esperança no retorno a Jerusalém. Os capítulos presentes no Deutero-Isaías são conhecidos como "livro da consolação" em razão de encontrarmos no início do oráculo o profeta que diz: "Consolai, consolai o meu povo, diz o vosso Deus, falai ao coração de Jerusalém e dizei-lhe em alta voz que seu serviço está cumprido, que sua iniquidade foi expiada" (Is 40,1-2). Estamos tendo contato nesse domingo com os últimos versículos do "livro da consolação" onde o profeta prevê que os exilados experimentarão em pouco tempo a libertação. Com isso, o povo de Deus, vivendo um segundo êxodo, voltará a pôr-se a caminho de Jerusalém. No entanto, deve-se compreender que esse caminho que os exilados farão novamente é um caminho novo, não apenas geográfico, mas um caminho espiritual de reencontro com o Deus criador-libertador. Os israelitas pensam que o retorno do exílio será o momento da vingança de Deus contra os babilônios, ou seja, pensam que chegou o momento de Deus recompensar os bons e punir os maus. Ao contrário, o novo caminho que os judeus exilados farão será marcado pela conversão dos seus corações. Podemos ver que esse apelo à conversão está bem acentuado pelo profeta através dos verbos: "buscai o Senhor", "invocaio", "volte para o Senhor", "volte para o nosso Deus". Essa atitude de conversão era evidenciada no Antigo Testamento pelo substantivo teshuvá que é derivado do verbo shuv que significa “voltar”. A teshuvá é, portanto, uma “volta para Deus”, um retorno para o caminho de Deus do qual constantemente nós nos afastamos.


É nessa dinâmica de conversão que os israelitas deverão se aventurar como um novo caminho, caso queiram experimentar uma vida nova com um coração novo. Isso só acontecerá se o povo de Deus mudar a sua maneira de pensar, pois não há mudança de comportamento se não houver mudança de pensamento. Na versão grega da bíblia hebraica, para designar a palavra "conversão" encontramos o verbo "metanoeuo" (3) que é a fusão de duas palavras: o prefixo "meta" que significa "mudança" e o substantivo "nous" (lê-se "nus") que significa "pensamento", "mentalidade", originando na língua portuguesa a palavra "metanóia". Portanto, os judeus exilados precisarão abandonar sua maneira de pensar e de olhar para Deus querendo enquadrá-lo dentro das suas atitudes egoístas que são próprias do ímpio e do homem injusto (Is 55,7) cujos projetos só ocasionam a morte. O profeta, para evidenciar que os projetos humanos estão distantes do projeto de Deus, diz: "Estão meus caminhos tão acima dos vossos caminhos e meus pensamentos acima dos vossos pensamentos, quanto está o céu acima da terra" (Is 55,9). Tanto os israelitas como todos nós precisamos enveredar esse novo caminho que é o da conversão, ou seja, mudar da forma de pensar do mundo para a forma de pensar do Evangelho. Assim, entendemos, pois, quando Jesus nos diz: "Convertei-vos e crede no evangelho" (Mc 1,15).


No Evangelho desse domingo, escutamos a parábola dos trabalhadores enviados para a vinha que é exclusiva de Mateus e está situada logo após o episódio do jovem rico no qual acentua o perigo das riquezas (cf. Mt 19,16-26) e dos ensinamentos sobre a recompensa àqueles que abraçam uma vida desprendida dos bens terrenos (cf. Mt 19,27-31). Dentro desse contexto, o Evangelho de hoje pode ser apresentado em duas partes: a primeira parte trata da contratação de trabalho que o dono da vinha faz a alguns homens em variados horários e, concluído os trabalhos, o pagamento devido (Mt 20,1-10); a segunda parte relata o comportamento de alguns trabalhadores que se sentem injustiçados pelo salário que receberam (Mt 20,11-15). Em seguida, uma conclusão que põe em evidência o núcleo da parábola (Mt 20,16).


Na primeira parte do Evangelho, conforme Mateus narra, percebe-se que o evangelista conhece perfeitamente a situação da Palestina, que sofre o desemprego de forma abundante no tempo de Jesus. Inúmeros camponeses, sofrendo com a pressão fiscal da época, tinham perdido as terras herdadas de suas famílias e decidem, então, alugar suas forças de trabalho. Juntando-se em praças, esses trabalhadores esperavam que os grandes proprietários de terras os contratassem para trabalhar, seja nos seus campos, seja nas suas vinhas. Dentro desse contexto histórico, Jesus aproveita para ensinar aos seus discípulos acerca da bondade e da ternura de Deus que foge aos esquemas humanos que querem sempre limitar o seu amor gratuito.


Segundo Mateus, o patrão, dono da vinha, sai pela madrugada para contratar trabalhadores combinando com os primeiros que foram encontrados um denário por dia (cf. Mt 20,1). O mesmo dono da vinha torna a sair pela terceira hora e, vendo que alguns trabalhadores encontravam-se desocupados, contrata-os para o trabalho em sua vinha e compromete-se em pagar o valor que for justo (cf. Mt 20,2-4). Da mesma maneira o dono da vinha sai a procura de trabalhadores em outros horários, ou seja, pela hora sexta e pela hora nona, horários que correspondem ao meio dia e às três horas da tarde respectivamente (cf. Mt 20,5). Por fim, contrata também aqueles que encontravam-se sem trabalho até a undécima hora que equivale a uma hora antes do final da jornada de trabalho (cf. Mt 20,6). Ao final de todo o horário de trabalho, o dono da vinha pede ao administrador para que os operários sejam chamados a fim de que cada um receba o seu valor monetário, iniciando por aqueles que foram chamados na última hora. Estes, por sua vez, receberam pelo trabalho realizado um denário (cf. Mt 20,6-9). Tal atitude provoca naqueles que trabalhavam desde o início o pensamento de que seriam melhor recompensados por terem trabalhado na vinha por mais tempo. Todavia, receberam a mesma quantia dos companheiros que foram contratados na última hora. (cf. Mt 20,10).


Na segunda parte do nosso texto, escutamos os trabalhadores que se julgam injustiçados pelo dono da vinha e fazem a seguinte murmuração: "Estes últimos trabalharam uma hora só, e tu os igualaste a nós, que suportamos o cansaço e o calor o dia inteiro" (Mt 20,12). A reclamação chega aos ouvidos do dono da vinha que diz a um deles: "Amigo, eu não fui injusto contigo. Não combinamos uma moeda de prata? Toma o que é teu e volta para casa! Eu quero dar a este que foi contratado por último o mesmo que dei a ti. Por acaso não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence? Ou estás com inveja, porque estou sendo bom?" (Mt 20,13-15).


Na resposta do empregado da primeira hora destaca-se a indignação com o dono da vinha por ter manisfestado sua bondade e ternura igualmente para todos. Ao dizer: "Estes últimos trabalharam uma hora só, e tu os igualaste a nós, que suportamos o cansaço e o calor o dia inteiro" (Mt 20,12) percebe-se que, além de decepcionado, está com os coração profundamente ferido de raiva. Seu coração cedeu espaço para o egoísmo e julga que a bondade do dono da vinha deve ser exclusiva para aqueles que suportaram o sol forte desde cedo. A sua ingratidão provoca nele o esquecimento de que estava desempregado e que a bondade do patrão fez surgir a esperança com um novo emprego. Na verdade, tal homem que murmura e reclama mostra que ele se enxerga apenas como empregado, diferente do dono da vinha que o vê com outros olhos ao dizer: "Amigo, eu não fui injusto contigo" (Mt 20,13). A atitude do empregado que se sente injustiçado com o valor recebido pelo trabalho que realizou expressa muitas vezes o nosso retrato no que diz respeito a nossa relação pessoal com Deus. Muitas vezes como os fariseus do tempo de Jesus, nosso relacionamento com o Senhor é como se Ele fosse um 'deus' contabilista. Achamos que o Pai do céu vai creditar e debitar da conta dos seus filhos aquilo que fizeram ou deixaram de fazer. Não é essa a imagem de Deus que Jesus apresenta para os homens e mulheres, mas ao contrário, é a imagem de um Pai "que ninguém pode medir sua grandeza, Ele é amor, é paciência, é compaixão. O Senhor é muito bom para com todos, sua ternura abraça toda criatura (Sl 144,3.8-9). Inclinados à tentação de achar que receberemos de Deus a sua recompensa porque executamos bem os nossos ofícios no ambiente profissional, na escola, na igreja, na família, julgando-nos que somos "bons", esquecemos que "o Bom é um só" (Mt 19,17). Quanto à leitura desse Evangelho, Santo Agostinho dizia: "No que se refere à retribuição, todos seremos iguais: os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos, pois aquele denário é a vida eterna, e na vida eterna todos serão iguais. (4)


Quantas vezes reproduzimos a mesma voz dos operários da primeira hora àqueles a quem nos colocamos a seu serviço dizendo: "tu os igualaste a nós". No Evangelho, essa fala revela a inveja que está enraizada no coração daqueles homens. Podemos observar isso claramente na resposta do dono da vinha que diz: "Por acaso não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence? Ou estás com inveja, porque estou sendo bom?" (Mt 20,15). Para esta expressão, refletida na última interrogação do dono da vinha acerca da inveja, encontramos no texto grego: "é o ophtalmós sou ponerós estin óti egò agathòs eimi" que literalmente pode ser traduzida como "ou teu olho é mau porque estou sendo bom?". De fato, a inveja é um olhar doente lançado sobre as pessoas quando estas recebem algum bem. Ainda que também nós possuamos esse bem, achamos que, por mérito de esforço, apenas nós temos direito de tê-lo. Uma pessoa que sente inveja possui um olhar cheio de enfermidade refetindo nitidamente sua tristeza pela alegria do outro. "O olho mau aqui indica a falta de amor daqueles trabalhadores murmuradores que se deixam levar pela inveja diante do bem que os outros companheiros experimentavam. Eles não souberam participar da alegria do bem experimentado!"(5) . Com a inveja, vem acompanhado um outro mal que é o da comparação de uma pessoa com a outra: "tu os igualaste a nós" (Mt 20,12). Esse mal é destruidor das relações humanas porque na comparação entre as pessoas haverá a tentação de elogiar um em detrimento do outro. Nesse momento instaura-se um "inferno interior" e a paz que o Cristo nos conquistou com seu mistério pascal parece não ter mais lugar dentro de nós. Enquanto nos julgarmos justos diante do Senhor pelo serviço que fazemos e ficarmos aguardando a sua recompensa pelo esforço que desempenhamos, estaremos perpetuando o pensamento farisaico cujo relacionamento com Deus se estabelece apenas dentro da perspectiva meritória, olhando-se apenas como seus empregados.


Enquanto esse pensamento e esse olhar doentio estiverem latentes em nós, estaremos, por vontade própria, nos distanciando ainda mais da bondade e da ternura do Pai, afinal, "meus pensamentos não são como os vossos pensamentos, e vossos caminhos não são como os meus caminhos, diz o Senhor" (Is 55,8). Precisamos hoje, mais do que nunca, conforme disse o profeta, buscarmos novamente a Deus enquanto Ele pode ser achado (cf. Is 55,6). Isso significa que precisamos refazer o caminho que possivelmente não tinha o Senhor como o norte da nossa existência. Arrependidos das nossas faltas e culpas, não tenhamos vergonha de apresentar ao Pai do céu as nossas invejas que nutrimos acerca do nosso próximo pelo bens materiais ou espirituais que alcançaram. Pelo contrário, ofertemos a Ele os nossos olhares enfermos e peçamos ao seu Filho que, derramando a unção viva do alto que é o seu Espírito, possamos ter um olhar pascal. Que a Palavra de Deus nessa eucaristia seja o remédio curativo para nossos olhares míopes e nos conceda um olhar de ressurreição vendo todas as coisas de forma nova. Que o Evangelho de hoje nos conceda um olhar de berakáh(6) capaz de fazer leitura dos acontecimentos da nossa história sob a ótica da ação de graças abandonando todas as murmurações, pois somente assim poderemos viver à altura do Evangelho de Cristo (cf. Fl 1,27a).


Ao nosso Deus toda honra e toda a glória pelos séculos dos séculos.

 

(1) JOÃO PAULO II, Carta Apostólica Dies Domini, n.38.

(2) O livro do profeta está dividido em três blocos: 1º) Capítulos 1-39: Proto-Isaías ou Primeiro Isaías: antes do exílio do povo na Babilônia. 2º) Capítulos 40-55: Dêutero-Isaías ou Segundo Isaías: período do exílio. 3º) Capítulos 56-66: Trito-Isaías ou Terceiro Isaías: período do pós exílio.

(3) RUSCONI, C. Dicionário do Grego do Novo Testamento, p. 305.

(4) Lecionário Patrístico Dominical, p.220.

(5) BOUZON, E., ROMER, K. J. A Palavra de Deus - No anúncio e na oração. Ano A. p.336

(6) "Berakáh", normalmente traduzido como bênção ou também admiração, louvor, agradecimento, é um dos termos que condensa toda a riqueza e originalidade do pensamento hebraico. DI SANTE, C. Israel em Oração, p.50.


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2 Comments


Ótima Homilia!

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Muito bom! Deus abençoe este Padre e o conserve com esta sabedoria.

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