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Homilia Pe. Eufrázio - 26º Domingo do Tempo Comum - Ano B


Leituras:


1ª Leitura - Nm 11,25-29

Salmo - Sl 18,8.10.12.-13.14 (R.8a 9b)

2ª Leitura - Tg 5,1-6

Evangelho - Mc 9,38-43.45.47-48


Reunidos no domingo para celebrar a nossa páscoa semanal, nós nos apresentamos a Deus em oração reconhecendo que o seu poder se manifesta no perdão e na misericórdia. Essa afirmação é a certeza de que em todos os domingos testemunhamos que o Senhor vem ao encontro da miséria do nosso coração para restabelecer em nós a harmonia que foi desfeita pelo nosso egoísmo. Sem dúvida, na celebração litúrgica, o Pai restabelece a nossa ordem interior quando escutamos com atenção a Palavra que foi proclamada. Na escuta orante das Sagradas Escrituras experimentamos o que pedimos ao Senhor: que Ele derrame em nossas vidas a sua graça a fim de alcançar os bens que já nos foram reservados.


Ouvimos na primeira leitura uma perícope do livro dos Números. Essa obra está dividida em três partes, a saber: os últimos dias do povo de Deus no Sinai (cf. Nm 1,1-10,10); a caminhada do povo eleito pelo deserto, partindo do Sinai até as planícies de Moab (cf. Nm 10,11-21,35); por fim, das planícies de Moab, os israelitas se preparam para a sua entrada na Terra Prometida (cf. Nm 22,1-36,13).


O texto proclamado em nossa liturgia nos apresenta como contexto a peregrinação dos hebreus e ilustrada por várias dificuldades. O povo de Deus murmura contra o Senhor pela falta de comida e mostram-se ingratos pelo maná que caía do céu junto com o orvalho (cf. Nm 11,4-9).Cansado e abatido com tudo o que está acontecendo, Moisés se queixa com o Senhor por não conseguir suportar o peso de conduzir sozinho os hebreus (cf. Nm 11,10-15). Deus, que não abandona o seu servo, pede a Moisés que reúna setenta anciãos de Israel e os conduza até a Tenda da Reunião. Nesse lugar, Deus desceu ao encontro de Moisés para dar-lhe as instruções a fim de transmiti-las aos hebreus (cf. Nm 11,16-24). Depois, "o Senhor desceu na nuvem e falou a Moisés. Retirou um pouco do espírito que Moisés possuía e deu aos setenta anciãos. Assim que repousou sobre eles o espírito, puseram-se a profetizar, mas não continuaram" (Nm 11,25). Os "anciãos" eram chefes de família, representantes dos clãs encarregados para a liderança. Eles eram uma espécie de instituição pertencente ao universo político-social de Israel e formavam um conselho onde cada um presidia na comunidade em que habitava. Enquanto dirigia sozinho o povo de Deus, Moisés possuía a plenitude do Espírito; agora, porém, o mesmo Espírito é derramado sobre os setenta anciãos. Contudo, quando houve a efusão do Espírito, Eldad e Medad permaneceram no acampamento e o "espírito repousou igualmente sobre os dois, que estavam na lista, mas não tinham ido à Tenda, e eles profetizavam no acampamento" (Nm 11,26).


Josué, observando o que estava acontecendo, fala para Moisés e pede-lhe que mande os dois anciãos se calarem (cf. Nm 11,28). O futuro sucessor de Moisés não aceita que Eldad e Medad manifestem no acampamento o carisma profético para o bem da comunidade em virtude de não estarem presente diante da Tenda da Reunião, conforme o Senhor havia ordenado. Josué tem uma visão monopolizada dos dons de Deus. Por essa razão, Moisés lhe responde: "Tens ciúmes de mim? Quem dera que todo o povo do Senhor fosse profeta e que o Senhor lhe concedesse o seu espírito!" (Nm 11,29). Tal resposta mostra que Moisés deseja que o povo participe, pelo discernimento, das decisões que proporcionam a vida para os israelitas. A resposta de Moisés torna-se um anúncio profético da efusão pneumática em Pentecostes, cujo Espírito será derramado sobre todos os homens e mulheres no cenáculo de Jerusalém manifestando publicamente o Povo da Nova Aliança (cf. At 2,16-21).


Semelhante ao episódio da primeira leitura, escutamos no Evangelho o relato que faz parte do conjunto de ensinamentos de Jesus aos seus discípulos (cf. Mc 9,35-50). Marcos narra que João vai ao encontro do Mestre para lhe dizer que os discípulos viram um homem realizando um exorcismo em seu nome e, por não pertencer ao grupo dos seus seguidores, eles o proíbiram (cf. Mc 9,38). Jesus, porém, diz: "Não o proibais, pois ninguém faz milagres em meu nome para depois falar mal de mim. Quem não é contra nós é a nosso favor" (Mc 9,39-40). Assim como Josué na primeira leitura, observamos que os discípulos de Jesus também desejam monopolizar os dons de Deus. Desse modo, eles evidenciam uma comunidade fechada a todos os que estão em harmonia com a missão de Jesus. "A atitude dos discípulos que proíbem expulsar demônios é provavelmente movida pela inveja que nasce da incapacidade de cumprir o mandato recebido"1.


Em seguida, o evangelista narra novamente uma série de ditos de Jesus nos quais observamos o tema da solidariedade prestada aos discípulos de Cristo. O gesto sildário, por menor que seja, não ficará sem a sua recompensa (cf. Mc 9,41). Em seguida, nos versículos 42-48, os ditos de Jesus são marcados por expressões fortes e até hiperbólicas. Eles estão unidos entre si pelo mesmo tema: "o escândalo". O primeiro dito de Jesus refere-se ao relacionamento com o próximo: "se alguém escandalizar um

destes pequeninos que creem, melhor seria que fosse jogado no mar com uma pedra de moinho amarrada ao pescoço" (Mc 9,42). Assim como no último domingo, a conclusão do Evangelho destacou a imagem das crianças, hoje, escutamos o evangelista que chama a nossa atenção para não escandalizarmos os pequeninos que têm a sua fé em Jesus . No texto grego o termo mikrós2 que pode ser traduzido como "pequeno", "criança", mas também pode se referir à pessoa humilde, o pobre. Quem escandaliza um desses pequeninos afastando-os de sua fé em Cristo, seria melhor que uma morte cruel o tivesse poupado. "O dito de Jesus em proteção do humilde é de uma radicalidade profunda. A morte terrível por afogamento com uma pedra de moinho ao pescoço é menos terrível do que escandalizar um pobre e humilde que crê em Jesus"3.


Por fim, os demais ditos de Jesus concernentes ao escândalo, referem-se ao relacionamento consigo mesmo, cujas sentenças são iguais. Cada uma delas assinala um membro do corpo. São eles: a mão, o pé e o olho (cf. Mc 9,43.45.47). Nessas sentenças, é possível notar o contraste que existe entre o caminho que conduz à vida e o caminho que conduz à morte. É muito importante entender que as expressões "cortar a mão", "cortar o pé" e "arrancar o olho" não designam a mutilação desses membros, mas sim o rompimento radical contra todos os perigos que ameaçam a própria fé. Desse modo, faz-se necessário conhecer a origem das más ações presentes no interior do homem para poder eliminar as raízes do mal. Jesus conclui com a sentença com uma citação do Trito-Isaías. Ao dizer que "o verme deles não morre, e o fogo não se apaga" (cf. Mc 9,48 / Is 66,24), Ele está se referindo, à luz do contexto profético, àqueles que se revoltam contra Deus e que, por esse motivo, serão excluídos da esperança escatológica do Reino de Deus, imagem que denota uma total destruição.


Amados irmãos e irmãs, os textos bíblicos que ouvimos chamam a nossa atenção para dois temas importantes: a intolerância e o escândalo. Quanto à intolerância, particularmente no âmbito religioso, somos tentados em segregar as pessoas que não pertencem aos nossos "grupos" pastorais, ainda que elas realizem uma boa ação que muitas vezes não fazemos, revelando, desse modo, a inveja que há em nossos corações. É importante recordarmos o que Jesus disse aos seus discípulos: "Quem não é contra nós é a nosso favor" (Mc 9,40).


No que diz respeito ao escândalo, somos exortados a tomarmos cuidado com as nossas atitudes antievangélicas, capazes de afastar da fé em Cristo aqueles que o Senhor atraiu com todo o seu amor ao seio da Igreja. "O escândalo é a atitude ou o comportamento que leva o outro a praticar o mal. Aquele que escandaliza torna-se o tentador do próximo. Atenta contra a virtude e a retidão; pode arrastar seu irmão à morte espiritual. (...) se reveste de uma gravidade particular em virtude da autoridade dos que o causam ou da fraqueza dos que o sofrem. O escândalo é grave quando é dado por aqueles que, por natureza ou função, devem ensinar e educar os outros. Jesus censura os escribas e os fariseus comparando-os a lobos disfarçados de cordeiros"4. Na segunda leitura, o apóstolo Tiago apresenta um exemplo de escândalo da parte daqueles que, na abubdância de suas posses e riquezas, agem com desonestidade quanto ao cumprimento de seus deveres em relação aos seus empregados. Ele diz: "Vede: o salário dos trabalhadores que ceifaram os vossos campos, que vós deixastes de pagar, está gritando, e o clamor dos trabalhadores chegou aos ouvidos do Senhor todo-poderoso" (Tg 5,4).


Em nosso tempo, precisamos nos precaver, sobretudo, do escândalo promovido pelo falso intelectualismo religioso que multiplica o discurso sectário e violento em nome da fé cristã. Que nessa Eucaristia, o Cristo nos preserve do orgulho (cf. Sl 14,18), expulse de nós a tentação de monopolizar os dons de Deus e nos ajude a recuperar a sensibilidade de escutar a sua voz tornando-nos autênticos discípulos da Palavra.


Ao nosso Deus toda honra e toda a glória pelos séculos dos séculos.

 

1. BORTOLINI, J. Roteiros homiléticos, p. 454.

2. RUSCONI, C. Dicionário do Grego do Novo Testamento, p. 310.

3. BOUZON, E., ROMER, K. J. A Palavra de Deus - No anúncio e na oração. Ano B. p. 335.

4. Catecismo da Igreja Católica, n.2284 e 2285


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