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Homilia Pe. Eufrázio - 3º Domingo do Tempo do Advento - Ano B


Leituras: 1ª Leitura - Is 61,1-2a.10-11

Salmo - Lc 1,46-48.49-50.53-54 (R.Is 61,10b)

2ª Leitura - 1Ts 5,16-24

Evangelho - Jo 1,6-8.18-28


Iluminados pelas Sagradas Escrituras na celebração da Eucaristia, somos convidados a bendizer a Deus reconhecendo o seu olhar misericordioso sobre nós, assim como os inúmeros favores com os quais Ele nos cumulou. A exemplo de Maria, com os corações cheios de alegria, cantamos: "A minha alma engrandece ao Senhor e se alegrou o meu espírito em Deus, meu Salvador" (Lc 1,46-47).


Na primeira leitura, estamos tendo contato com um texto que nos situa na época posterior ao exílio, cujo ambiente nos apresenta uma cidade de Jerusalém que está em reconstrução. Para os israelitas que retornaram do exílio, há em seus corações um sinal de alerta porque, para eles, são tempos difíceis e duvidosos, pois o número de pessoas na cidade é pequeno e a reconstrução é muito lenta e modesta. Com a cidade sendo reconstruída aos poucos e a vida do povo de Deus voltando paulatinamente ao normal, vão surgindo novamente as injustiças cometidas pelos poderosos sobre os mais pobres e fracos. Esse cenário provoca nos judeus repatriados a falta de esperança de uma vida digna e feliz.


Contudo, a esses judeus, cujas dúvidas pairam sobre seus corações, o Senhor envia o profeta para mostrar que Ele não abandona o seu povo, assim como para anunciar-lhes a alegria de tempos novos inaugurados por Aquele que trará consigo a unção do Espírito conforme diz o autor sagrado: "O espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me ungiu; enviou-me para dar a boa-nova aos humildes, curar as feridas da alma, pregar a redenção para os cativos e a liberdade para os que estão presos; a para proclamar o tempo da graça do Senhor" (Is 61,1-2).


À luz dos Evangelhos, vemos que essa profecia se cumpre plenamente em Cristo, pois, Ele mesmo quando entrou na sinagoga de Nazaré e entregaram-lhe o rolo do profeta Isaías, proclamou o mesmo texto que ouvimos na primeira leitura e, como exegeta da Antiga Aliança, diz: "Hoje se cumpriu aos vossos ouvidos essa passagem da Escritura" (Lc 4,21).


No Evangelho de hoje narrado pelo evangelista João, escutamos o testemunho que João Batista dá a respeito de Jesus. O texto evangélico desse domingo pode ser dividido em dois blocos: no primeiro temos uma pequena parte do prólogo joanino (Jo 1,6-8) no qual João Batista é apresentado como "um homem enviado por Deus" e "para dar testemunho da luz". No segundo bloco (Jo 1,19-28), vemos o diálogo de João Batista com as autoridades religiosas de Jerusalém e nesse diálogo aprofundaremos a nossa reflexão.


O ambiente no qual João Batista vive é marcado por um messianismo muito exacerbado. Isso porque o povo de Deus nesse período, dominado pelos romanos, é muito humilhado e cada vez mais explorado pela classe política que, acomodada em seus privilégios, impõe impostos violentos. O mesmo pode ser dito a respeito da classe religiosa que vive sob a direção de um ritualismo legalista que marginaliza aqueles que não conseguem observar a Lei em razão de tantos fardos pesados que puseram sobre ela, tornando-se, assim, uma religião opressora que afasta as pessoas da presença de Deus. Diante desse cenário humilhante, os israelitas vivem na expectativa da chegada do Messias libertador, enviado por Deus para inaugurar uma nova liberdade, um tempo de alegria e de júbilo. Porém, muitos do povo de Deus estavam dispostos a aproveitar qualquer oportunidade de libertação e, por causa disso, eram presas fáceis dos falsos messias. Num ambiente com esse cenário só crescia a violência, a miséria, a pobreza e a frustração de Israel.


Muito preocupados com a fidelidade da ortodoxia religiosa judaica, sacerdotes e levitas iniciam um diálogo com João Batista, o precursor do Filho de Deus, a fim de saber quem ele é. Três vezes perguntam a João acerca da sua identidade. Inicialmente perguntam se ele é o Messias (cf. Jo 1,20), em seguida perguntam se é Elias (cf. Jo 1,21) e, por fim, perguntam se ele é "o Profeta" (cf. Jo 1,21) aludindo aqui a pessoa de Moisés, cuja tradição deuteronômica tinha conhecimento acerca da promessa divina na qual Deus suscitaria, no meio de seu povo, um profeta como aquele (cf. Dt 18,18) que libertou o povo da escravidão do Egito. Às três perguntas, João Batista nega ser o Messias, Elias e "o Profeta". Ele não usurpa a identidade dos personagens que na economia da salvação tem grande relevância para Israel. Menos ainda, João Batista usurpa a identidade Daquele para quem ele foi enviado a fim de preparar o seu caminho, isto é, o Cristo. Suas respostas negativas parecem deixar a comissão dos líderes judaicos desconcertada. Insistentemente, sacerdotes e levitas perguntam quem é ele e João Batista dá o testemunho de si, dizendo: “Eu sou a voz que grita no deserto: ‘Aplainai o caminho do Senhor’ - conforme disse o profeta Isaías" (Jo 1,23). Segundo o professor Emanuel Bouzon, "na tradição do quarto evangelho é, contudo, o próprio Batista que compreende e define a sua missão como a de alguém que prepara o caminho para outro. Certamente não se trata mais, como no texto original de Isaías, de um caminho no deserto pelo qual o povo devia voltar do exílio, mas a missão do Batista era preparar para a intervenção salvífica de Deus em seu povo" [1] . Questionado em razão do batismo que realizava, uma vez que ele não era o Messias, nem Elias e nem "o Profeta", João Batista responde às autoridades religiosas dizendo: “Eu batizo com água; mas no meio de vós está aquele que vós não conheceis, e que vem depois de mim. Eu não mereço desamarrar a correia de suas sandálias” (Jo 1,26-27). A missão do precursor é apenas dar o testemunho de Cristo que já está no meio dos homens, mas estes não o reconheceram. O batismo de João era um sinal de ruptura[2] com o sistema religioso vigente apontando para um batismo que inaugura o Reino de Deus no coração de cada ser humano que estiver disponível para acolhê-lo. É o Verbo de Deus quem vai batizar todos os homens e mulheres na plenitude do seu Espírito curando a humanidade ferida de morte, proclamando que o tempo da graça do Senhor (cf. Is 61,2a; Lc 4,19) já se manifestou.


Em cada celebração dominical, sobretudo nesse tempo do advento, somos exortados pela Palavra de Deus para preparar os caminhos do Senhor em nossas vidas. No tempo de Jesus, João Batista tinha a missão de anunciar aos homens e mulheres que o kairós de Deus já estava presente no meio deles. Para reconhecer esse tempo de salvação que se manifesta diariamente em nossa história, faz-se necessário romper com o falso messianismo que constantemente procuramos e queremos adquirir. Em outras palavras, desejamos que o Filho de Deus apenas nos recompense com as benesses nesse mundo; queremos somente possuir vantagens de uma vida fácil estabelecendo, assim, uma relação comercial com o Cristo: "Senhor, dá-me isso que eu te dou aquilo". Esse tipo de relação é a imagem dos caminhos tortuosos que interiormente precisam ser preparados e aplainados em nós. Quando agimos dessa maneira, a voz profética da Igreja continua ecoando no deserto desse mundo, dizendo-nos: "No meio de vós está aquele que vós não conheceis" (Jo 1,26).


Nesse domingo, dia do Senhor, peçamos ao Pai a graça de nos prepararmos para as celebrações do Natal do seu Filho com os corações transformados pela sua Palavra. Ela, geradora de vida no Espírito, é quem opera em nós uma vida nova, dando-nos coragem para enfrentar as dificuldades do tempo presente que nos assolam. Tais dificuldades que surgem em nossos caminhos não podem ser vistas como se elas existissem apenas para nos humilhar e nos fazer desistir dos nossos projetos. Ao contrário, diante dos desafios que encontramos, precisamos lembrar o que hoje nos diz o apóstolo Paulo: "Estai sempre alegres, rezai sem cessar, dai graças em todas as circunstâncias, porque essa é a vosso respeito a vontade de Deus em Jesus Cristo (1Ts 5,16-18). O v.18 no texto grego está escrito: "en pantí eucharisteite", do verbo eucharisteo [3] que significa "agradecer", "render graças"; derivado do substantivo eucharistía [4] que significa "agradecimento", "ação de graças", "gratidão". O apóstolo dos gentios que sofreu inúmeras provações, conhecia na oração de Israel o verdadeiro sentido da berakáh [5] . Paulo, homem cheio do Espírito Santo, em todas as situações, boas ou ruins, encontrava motivos para bendizer a Deus e, dessa maneira, toda a realidade tornava-se para ele uma "eucaristia", uma razão para render graças ao Senhor. Diante dos inúmeros desafios que encontramos no tempo presente, sobretudo num tempo em que a pandemia da COVID-19 vai revelando a efemeridade da nossa vida, precisamos proclamar sobre todas as situações que acontecem conosco, sobretudo nas dificuldades, o que dizia São Paulo: "Em tudo dai graças" (1Ts 5,18). Portanto, renunciando as palavras de maldição que lançamos contra nós ou contra o próximo, sejamos, na força do Espírito, "eucaristizados" pela Palavra de Deus a fim de sermos uma perene "eucaristia" para aqueles que encontraremos, isto é, uma verdadeira expressão de ação de graças.


Ao nosso Deus toda honra e toda a glória pelos séculos dos séculos.

 

[1] - BOUZON, E., ROMER, K. J. A Palavra de Deus - No anúncio e na oração. Ano B. p.33.

[2] - MATEOS, J.; BARRETO, J. O Evangelho de São João, p. 85.

[3] - RUSCONI, C. Dicionário do Grego do Novo Testamento, p. 207.

[4] - RUSCONI, C. Dicionário do Grego do Novo Testamento, p. 208.

[5] - "Berakáh", normalmente traduzido como bênção ou também admiração, louvor, agradecimento, é um dos termos que condensa toda a riqueza e originalidade do pensamento hebraico. DI SANTE, C. Israel em Oração, p.50.

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