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Homilia Pe. Eufrázio - 4º Domingo da Quaresma - Ano B


Leituras:


1ª Leitura - 2Cr 36,14-16.19-23

Salmo - Sl 136, 1-2.3.4-5.6 (R. 6a)

2ª Leitura - Ef 2,4-10

Evangelho - Jo 3,14-21


Com alegria celebramos o dia da nossa páscoa semanal, o Domingo. Nele encontramos a meta de todo o tempo quaresmal que é a celebração da ressurreição do Senhor, a Páscoa de Cristo. São muitos os elementos que Deus dispõe na celebração litúrgica para alcançarmos tal meta e um deles é a Palavra de Deus. Ela, conforme afirma o salmista, "vossa Palavra é luz para os meus passos, é uma lâmpada luzente em meu caminho" (Sl 118[119],105). Cada vez que fazemos a leitura e a meditação da Palavra de Deus, ela ilumina os nossos corações nas decisões que devemos tomar ao longo dos nossos dias. A partir da escuta atenta das Santas Escrituras, nosso interior é transfigurado pelo Espírito e os nossos desejos são purificados.


Escutamos, na primeira leitura, o autor sagrado do livro das crônicas que faz uma síntese de dois grandes eventos que marcam a história do povo de Israel: o exílio dos israelitas na Babilônia e o repatriação à cidade de Jerusalém.


No texto que ouvimos, observamos que o exílio da Babilônia foi o resultado das infidelidades à Aliança de Deus, sobretudo por parte dos reis de Judá. Estes, por sua vez, conduziam na injustiça todo o povo eleito que, junto com os chefes dos sacerdotes, "multiplicaram suas infidelidades, imitando as práticas abomináveis das nações pagãs, e profanaram o templo que o Senhor tinha santificado em Jerusalém" (2Cr 36,14). As infidelidades dos israelitas endureceram seus corações a ponto de não escutarem o Senhor que dirigia sua Palavra por meio dos profetas. Esses mensageiros de Deus eram sinais da compaixão divina (cf. 2Cr 36,15). No entanto, eles eram rejeitados pelos habitantes de Judá que se obstinavam em viver na escuridão de seus pecados. A voz de Deus, por intermédio dos profetas, era desprezada pelos israelitas (cf. 2Cr 36,16). Diante da falta de amor a Deus em suas vidas, a consequência disso foi o castigo divino. Aqui, precisamos entender que o castigo de Deus na leitura bíblica não pode ser interpretado como um gesto de vingança, igualmente praticado pelos homens com o desejo de ver o mal do outro. Ao contrário, o castigo divino deve ser interpretado como a prevalência da sua justiça em honra do seu santo nome.


Uma vez que a Aliança de Deus foi violada pelo seu povo, este, por sua vez, não gozará dos direitos de permanecer na terra que o Senhor lhe deu. Dessa maneira, vemos se cumprir o que Deus disse por meio do profeta Jeremias: "Até que a terra tenha desfrutado de seus sábados, ela repousará durante todos os dias da desolação, até que se completem setenta anos" (2Cr 36,21).


O repouso da terra estava previsto na lei (cf. Lv 26,34-35). Ele tinha como finalidade incutir nos israelitas a consciência de que a terra é dom de Deus e evitar que ela fosse objeto de exploração e desfrutada gananciosamente. Visto que o povo violou essa lei com as suas injustiças e abominações, agora, a terra receberá de Deus o seu repouso. Ela viverá o seu tempo de jubileu; tempo correspondente à duração do exílio.


Assim, com a destruição do templo e dos muros da cidade santa, os israelitas são deportados para a terra estrangeira. Nela, experimentam com lágrimas os resultados de suas infidelidades ao projeto de Deus. No exílio, os judeus vivem uma profunda humilhação e desconsolo. Essa imagem está ilustrada pelo testemunho do salmista: "Junto aos rios da Babilônia nos sentávamos chorando, com saudades de Sião. Nos salgueiros por ali penduramos nossas harpas. Pois foi lá que os opressores nos pediram nossos cânticos; nossos guardas exigiam alegria na tristeza, 'Cantai hoje para nós algum canto de Sião!' Como havemos de cantar os cantares do Senhor numa terra estrangeira?" (Sl 136 [137],1-4).


A partir dessa imagem que mostra a aflição e o sofrimento de viverem na Babilônia, não se desconhece os efeitos educativos da justiça de Deus. Porém, ao lado da justiça acompanha também a sua misericórdia que não abandona o seu povo na morte. O autor sagrado tem plena consciência de que o castigo sofrido pelos israelitas no exílio não é a última palavra de Deus. Ainda que o povo tenha sido infiel à Aliança, Deus não é infiel às suas promessas, particularmente às que Ele fez a Davi (cf. 2Sm 7,14-16).


A fidelidade de Deus se manifesta em favor do seu povo suscitando Ciro, rei da Pérsia. Ungido pelo Senhor, Ciro proclama a repatriação dos judeus para Jerusalém. Além disso, ordena que um novo templo seja reconstruído na cidade santa (2Cr, 36,23). Com efeito, a misericórdia de Deus faz crescer a esperança de tempos novos onde a vida pode ser recomeçada. O povo eleito, ainda que tenha abandonado o Senhor e seus preceitos, experimenta em sua vida a misericórdia e a bondade de Deus. Desse modo, os israelitas testemunham que o Senhor jamais se esquecerá dos seus filhos. Disso nos recorda o cantor sagrado: "Se de ti, Jerusalém, algum dia eu me esquecer, que resseque a minha mão! Que se cole a minha língua e se prenda ao céu da boca, se de ti não me lembrar! Se não for Jerusalém minha grande alegria!" (Sl 136 [137],5-6).


Testemunhamos o amor de Deus por todos os seus filhos quando, na plenitude dos tempos (cf. Gl 4,4), Ele enviou o seu Filho para nos resgatar das nossas experiências de morte. Afinal, por meio Dele recebemos a vida em abundância (cf. Jo 10,10). É o próprio Cristo que, no Evangelho narrado por João, durante a festa da Páscoa, dialoga com Nicodemos, um homem notável entre os judeus (cf. Jo 3,1), "mestre em Israel" (Jo 3,9) e membro do Sinédrio (cf. Jo 7,50).


O diálogo de Jesus com Nicodemos pode ser destacado em três momentos: no primeiro, Nicodemos reconhece a autoridade de Jesus em razão das obras que Ele realiza (cf. Jo 3,1-3). No segundo momento, Jesus fala para Nicodemos sobre a necessidade de "nascer de novo". Explica-lhe que esse "novo nascimento" só pode acontecer por meio "dá água e do Espírito" (cf. Jo 3,4-8). Por fim, Jesus revela o projeto salvífico de Deus que é sempre uma iniciativa divina. Nesse projeto de salvação, Deus manifesta o seu amor por toda a humanidade e Jesus é a maior revelação desse amor (cf. Jo 3,9-21). É nesse último momento do diálogo do Filho de Deus com Nicodemos que se encontra o texto evangélico desse domingo.


Nele, vemos Jesus que inicia a explicação do projeto salvífico do Pai dizendo-lhe que o Filho do Homem será levantado tal como Moisés levantou a serpente no deserto (cf. Jo 3,14). Nesse episódio, recordamos o povo que, perdendo a paciência, começou a falar contra Deus e contra Moisés. Por causa dessa atitude, o Senhor enviou serpentes abrasadoras contra os hebreus. Vendo-se em perigo, eles suplicam a Moisés em seu favor. Depois de interceder ao Senhor pelo povo, Moisés faz uma serpente de bronze e, colocando-a numa haste, todo aquele que fosse mordido e a contemplasse, permanecia vivo (cf. Nm 21,4-9). Do mesmo modo, todo o homem que crer no Filho do Homem elevado na cruz receberá a vida eterna (cf. Jo 3,15).


Jesus mostra que a sua morte será traduzida como um ato de doação amorosa da parte do Pai: "Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito" (Jo 3,16a). Nesse versículo, encontramos a síntese do significado mais profundo da obra redentora de Cristo, o excelso amor de Deus por todas as suas criaturas. "O termo kósmos (mundo) significa aqui a humanidade pecadora e afastada de Deus. O evangelista acentua claramente que é o amor de Deus que vence a barreira do pecado existente entre o mundo e Deus. Pela fé no Filho enviado por Deus, o homem tem a vida eterna já presente dentro de si. É uma linha de escatologia já realizada" [1] .


Entretanto, aquele que não crê no Filho do Homem continua na condenação excluindo-se a si mesmo da vida eterna. Tal exclusão, feita por cada homem e mulher, é ilustrada pela escolha das trevas refletidas nas suas más ações. Diante dessa escolha, eles recusam a luz que veio ao mundo: o Cristo (cf. Jo 3,18-19). Sem dúvidas, a presença da luz provoca um julgamento, ou seja, a separação de dois grupos: daqueles que praticam o mal mostrando que odeiam a luz e dela se afastam; e daqueles que agindo segundo a verdade, sem medo, aproximam-se da luz (cf. Jo 3,20-21)


Nesse Domingo Laetare, somos recordados pela antífona de entrada a experimentarmos a alegria que Deus nos concede pelas proximidades das festas pascais. Nelas veremos crescer em nossas vidas os frutos da Ressurreição de Cristo que semeamos nessa quaresma. Ainda que estejamos carregando fardos pesados que nos fazem olhar a vida com sofrimento, o profeta nos recorda: "vós que estais tristes, exultai de alegria! Saciai-vos com a abundância de suas consolações" (Is 66,11)


Desse modo, peçamos ao Espírito Santo a graça de ver a vida com um olhar de misericórdia e de esperança. Diante das nossas faltas e das nossas inúmeras infidelidades ao amor de Deus, as provações que vivemos são oportunidades para revisarmos o verdadeiro sentido da nossa vida e missão nesse mundo. Por meio dos obstáculos que encontramos nos nossos caminhos, o Senhor nos dá sempre a oportunidade de crescer como homens e mulheres novos.


A Quaresma ainda não acabou. Diante das experiências de morte que nos faz sofrer, precisamos voltar o nosso olhar para o Cristo, "sacramento" original[2] . Ele manifesta para todos nós o profundo mistério do amor do Pai. No desejo de suscitar em nós um novo olhar, o Papa Francisco diz: "Precisamos sempre contemplar o mistério da misericórdia. É fonte de alegria, serenidade e paz. É condição da nossa salvação"[3] .


Levantado na cruz, o Filho de Deus não nos condena. Ao contrário, olha para nós e, com seu olhar misericordioso, nos resgata dos nossos crimes. Paulo, apóstolo dos gentios, fez esta alegre experiência de ter sido resgatado pelo amor misericordioso do Pai. Razão pela qual ele dá o seu testemunho dizendo que "Deus é rico em misericórdia. Por causa do grande amor com que nos amou, quando estávamos mortos por causa das nossas faltas, ele nos deu a vida com Cristo. É por graça que vós sois salvos!" (Ef 2,4-5). Portanto, abandonando nossos olhares de juízes que constantemente condenam o próximo, manifestemos uns aos outros o olhar misericordioso de Deus que refaz a nossa caminhada e ressuscita as nossas vidas.


Ao nosso Deus toda honra e toda a glória pelos séculos dos séculos.

 

[1] BOUZON, E., ROMER, K. J. A Palavra de Deus - No anúncio e na oração. Ano B. p. 105-106.

[2] BOROBIO, D. A celebração da Igreja, v. 1, p. 297.

[3] FRANCISCO, Papa. Misericordiae Vultus, 2.


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