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Homilia Pe. Eufrázio - 6º Domingo do Tempo Comum - Ano B


Leituras:


1ª Leitura - Lv 13,1-2.44-46

Salmo - Sl 31,1-2.5.11 (R. 7)

2ª Leitura - 1Cor 10,31-11,1

Evangelho - 1,40-45


O Concílio Vaticano II, por meio da Constituição Litúrgica Sacrossanctum Concilium, afirma sobre a importância da Palavra de Deus na vida da Igreja. Nessa constituição conciliar, destaca-se a presença de Cristo na Palavra ao ser proclamada na celebração litúrgica[1] . Na liturgia da Palavra, “Deus fala a seu povo, Cristo continua a anunciar o Evangelho e o povo responde a Deus com o canto e a oração”[2] . Desse modo, percebemos que a Palavra de Deus provoca em todos nós uma resposta que ajude expressar a nossa vida como uma profunda liturgia.


Ouvimos na primeira leitura um texto do livro do levítico que faz parte de uma seção que trata acerca das leis referentes à pureza e impureza (Lv 11-16). Nessa leitura, escutamos especificamente sobre a lei concernente à lepra humana. Nesse contexto, devemos entender a lepra como diversas infecções cutâneas ou superficiais que podiam deformar a aparência do enfermo. Caso a lepra fosse constatada e confirmada pelo sacerdote, o leproso era considerado impuro. Por isso, aquele que estivesse acometido por esse mal era segregado e afastado da comunidade em que vivia.


Além disso, segundo o pensamento da época, a enfermidade era vista como um castigo divino, ou seja, Deus fez cair sobre a vida do leproso o castigo por algum pecado que ele cometeu. Desse modo, na comunidade dos filhos de Israel, o leproso era também considerado um grande pecador e um amaldiçoado.


O afastamento do leproso acrescentava um estigma a mais do que aqueles que já trazia em seu corpo. Além do estigma da lepra, esse enfermo trazia um estigma interior, em seu coração. Em virtude do forte legalismo ritual, o leproso era excomungado e, por essa razão, não tinha acesso a Deus. Ele era o grande símbolo de uma vida marginalizada, conforme narra o autor sagrado: "O homem atingido por este mal andará com as vestes rasgadas, os cabelos em desordem e a barba coberta, gritando: ‘Impuro! Impuro!’ Durante todo o tempo em que estiver leproso será impuro; e, sendo impuro, deve ficar isolado e morar fora do acampamento" (Lv 13,45-46).


Nessa época, a dimensão religiosa parecia ser mais importante do que a dimensão sanitária. Quem estivesse acometido pela lepra deveria gritar que era impuro a fim de impedir que as pessoas se aproximassem e fossem contaminadas. Por isso, o leproso era, na verdade, um morto-vivo.


No Evangelho narrado por Marcos, encontramos um eco da primeira leitura. Em continuidade com o texto evangélico do último domingo, escutamos o episódio sobre um leproso que se aproxima de Jesus. Ajoelhado, ele faz uma espécie de epiclese[3] : "Se queres, tens o poder de curar-me" (Mc 1,40). No texto grego, em relação ao pedido que foi feito pelo leproso, temos o verbo kataridzo[4] que pode ter como significado "purificar", "limpar", "curar" "declarar puro".


Diante da atitude do leproso, vemos que ele não teme se aproximar de Jesus. Ele não grita "Impuro! Impuro!", a fim de evitar que Jesus se aproxime dele. Ao contrário, o seu grito é um grito de fé na pessoa daquele ajudou a sogra de Simão com a sua mão e, levantando-a, fez a febre dela desaparecer. O leproso acredita naquele que curou muitos enfermos e expulsou muitos demônios. Por isso, escutando tudo o que Jesus tinha feito pelo caminho, o homem ferido em seu corpo vai ao encontro do Filho de Deus que pode devolver a ele a vida novamente.


Um vez que os leprosos eram considerados impuros no AT e excluídos do convívio social-fraterno, um judeu ortodoxo os evitava para não se tornar impuro no contato com eles. "Mas a reação de Jesus diante do leproso é completamente diferente da reação que um rabino teria. Jesus não evita o doente. Ele não teme tornar-se impuro ao contato com o leproso. Para Jesus, pureza e impureza não está condicionada a contatos externos; é uma realidade mais profunda, mais interior, mais pessoal (cf. Mc 7,1-13)[5] .


O evangelista Marcos evidencia os gestos de Jesus: "cheio de compaixão, estendeu a mão, tocou nele" (Mc 1,41a). No texto grego temos o verbo "esplankniste", derivado do substantivo "esplanknon" que significa "vísceras"[6] . No texto evangélico, a reação de Jesus com a imagem que se depara é tão forte que Ele sente pelo leproso um amor visceral. Em outras palavras, as suas próprias vísceras se contraem no seu corpo, pois a dor do leproso agora se tornava também a sua dor. Jesus sente uma forte empatia pelo enfermo que tem o seu corpo chagado pela lepra.


A compaixão de Jesus não é aparente; é verdadeira. Ela aproxima o Filho de Deus até o leproso que estende a sua mão sobre ele e toca-o. Esses gestos de Jesus são tipicamente de Deus. Eles evocam a história do Êxodo, isto é, às ações de libertação que o Senhor operou em favor do seu povo quando estava escravo no Egito (Ex 3,20; 6,8; 8,1; 9,22 etc). O gesto de compaixão de Jesus que o aproxima do leproso é um gesto de amor libertador. Com a sua mão estendida, Ele salva aquele homem chagado pela lepra em seu corpo e ferido pela rejeição que sofre. Ao tocar-lhe com a mão, Ele o resgata da escravidão que a doença lhe impôs. Quando Jesus toca no leproso, Ele está mostrando que a Lei, conforme era seguida, estava sendo apenas um sinal de exclusão.


Segundo a lei sobre as normas de pureza e impureza, tocando o leproso, Jesus tornar-se-ia um impuro e fonte de impureza. Nesse caso, Ele deveria ficar isolado em lugares afastados para que não oferecesse risco de contaminação. No entanto, Marcos tem como intenção revelar quem é Jesus. O evangelista gradativamente nos apresenta Jesus como o verdadeiro Messias. Um dos sinais que manifestaria a vinda do Messias era a purificação dos leprosos (cf. Mt 11,5). Jesus é o Cristo. Ele é o ungido pelo Pai que comunica, por meio de seus gestos e palavras, a força da sua unção a todos os homens e mulheres que carecem de vida. Por isso, Jesus diz ao leproso: "Eu quero: fica curado!" (Mc 1,41). Essa palavra é cheia da força do Espírito e quem a proclama, fala como Deus. Sua palavra, como na criação, opera as maravilhas que só Deus pode realizar: "No mesmo instante a lepra desapareceu e ele ficou curado" (Mc 1,42). Purificado em seu corpo e curado em seu coração, aquele homem que estava acometido pela lepra, agora, é "sacramento" da nova criação.


Ao leproso que foi curado, Jesus ordena com firmeza dizendolhe: "Não contes nada disso a ninguém! Vai, mostra-te ao sacerdote e oferece, pela tua purificação, o que Moisés ordenou, como prova para eles!" (Mc 1,44). Para ser reintegrado na comunidade religiosa, conforme previa a Lei, era necessário que o sacerdote, depois de averiguar o leproso, confirmasse que ele estava curado. Assim, observamos que a cura do leproso não depende das normas de pureza e nem da religião do Templo. Ela, porém, manifesta para os homens que os tempos messiânicos já foram inaugurados pelo Filho de Deus.


O Evangelho nos mostra que a verdadeira Lei que salva e reintegra o leproso na vida comunitária é o amor. Se antes aquele leproso era reconhecido como um pecador e amaldiçoado, agora ele é um homem reconciliado e abençoado. "Ao leproso não é somente restituída a saúde, mas ele recebe a vida plena. Pode voltar à vida em comunidade, pode participar do culto, pode viver sem a marca da maldição"[7] . O leproso faz a experiência da oração sálmica: "Senhor, clamei por vós pedindo ajuda, e 7 BOUZON, E., ROMER, K. J. A Palavra de Deus - No anúncio e na oração. Ano B. p. 225. vós, meu Deus, me devolvestes a saúde! Vós tirastes a minha alma dos abismos e me salvastes quando estava já morrendo!" (Sl 29[30],3-4). Mesmo não obedecendo a ordem de Jesus para que não contasse nada a ninguém, o leproso tornou-se um arauto das maravilhas que o Senhor fez em seu favor.


Amados irmãos e irmãs, a lepra, conhecida cientificamente em nossos dias como hanseníase, é uma doença de evolução lenta. O enfermo acometido por esse mal, perde gradativamente a sensibilidade da pele onde a bactéria está alojada. Nesse domingo, Cristo, nosso paráclito, se aproxima de cada um de nós junto às nossas "lepras". Não hesitemos em manifestar a Ele o nosso grito de fé. Ainda que o procuremos e a sua resposta seja o silêncio, isso não significa que o Filho de Deus está indiferente aos nossos sofrimentos. Mais cedo ou mais tarde sua mão também será estendida sobre nós e Ele nos salvará.


É importante que nesses tempos difíceis de pandemia da COVID-19, possamos ir ao encontro daqueles que se aproximam de nós e pedem a nossa ajuda, como o leproso do Evangelho. Portanto, não deixemos que a lepra da indiferença, do egoísmo, do rancor, da intolerância, dos discursos de ódio, torne o nosso coração insensível a ponto de não sentir a dor do outro. Bem-aventurados são aqueles que socorrem seus irmãos em suas necessidades, conforme nos recorda o salmista: "Feliz de quem pensa no pobre o no fraco: o Senhor o liberta no dia do mal! O Senhor vai guardá-lo e salvar sua vida, o Senhor vai torná-lo feliz sobre a terra e não vai entregá-lo a mercê do inimigo. Deus irá ampará-lo em seu leito de dor e lhe vai transformar a doença em vigor" (Sl 40[41],2-4). Todavia, que todos os nossos gestos de solidariedade ao nosso próximo não sejam para o crescimento das nossas vaidades. Ao contrário, como diz o apóstolo Paulo, "fazei tudo para a glória de Deus" (1Cor 10,31).


Ao nosso Deus toda honra e toda a glória pelos séculos dos séculos.

 

[1] SC 7

[2] SC 33

[3] Epiclese, termo grego formado por duas palavras: a preposição epi que significa "sobre" e o verbo kaleo traduzido como "chamar", "convocar", "invocar". RUSCONI, C. Dicionário do Grego do Novo Testamento, p. 186 e 247. A epiclese ou invocação ao Pai para pedir a efusão do Espírito, presente nos diversos sacramentos, alcança na celebração eucarística seu ponto culminante. CODINA, V. Não extingais o Espírito - Iniciação à pneumatologia, p. 126.

[4] RUSCONI, C. Dicionário do Grego do Novo Testamento, p. 241.

[5] BOUZON, E., ROMER, K. J. A Palavra de Deus - No anúncio e na oração. Ano B. p. 223. [6] RUSCONI, C. Dicionário do Grego do Novo Testamento, p. 424.

[7] BOUZON, E., ROMER, K. J. A Palavra de Deus - No anúncio e na oração. Ano B. p. 225.


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