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Homilia Pe. Eufrázio - Solenidade de Cristo Rei do Universo

"Cristo ontem e hoje, princípio e fim. A Ele o tempo e a eternidade, a glória e o poder pelos séculos sem fim. Amém!" (Trecho da Liturgia da Vigília Pascal)


Leituras: 1ª Leitura - Ez 34,11-12.15-17

Salmo - Sl 22,1-2a.2b-3.5-6 (R.1)

2ª Leitura - 1Cor 15,20-26.28

Evangelho - Mt 25,31-46


Chegamos ao fim do ano litúrgico e com a solenidade de Cristo Rei do Universo celebrada por toda a Igreja reconhecemos que todo o poder cósmico está em suas mãos, afinal, o Pai estabeleceu que todas as coisas fossem restauradas no seu Filho amado. Por isso, afirmamos que Ele é o alfa e ômega, o princípio e o fim, a Ele o tempo e a eternidade.


Na primeira leitura, dentro do contexto exílico, o povo de Deus está desterrado na Babilônia e é nesse cenário que Ezequiel exerce a sua vocação profética. No exílio, os israelitas sofrem o desespero de não ter mais o Templo e o culto. Desta forma, cresce em seus corações a incerteza da bondade e do amor de Deus em suas vidas. Convocado por Deus, o profeta com a sua voz terá a missão de resgatar a esperança e a certeza de que o Senhor não os abandonou.


A perícope que estamos tendo contato nessa liturgia nos apresenta um ambiente que deixa evidente que o exílio foi a resposta da infidelidade dos reis de Israel à Aliança. Estes que deveriam ser pastores do povo de Deus, governavam explorando os israelitas em vista dos seus próprios interesses, sobretudo, quando faziam alianças com reis estrangeiros. Conduzindo o povo na infidelidade à Aliança e, por sua vez, desviando-o do caminho da santidade e da justiça, o próprio Senhor os rejeitará e Ele mesmo vai assumir como verdadeiro pastor as ovelhas da casa de Israel. Tais ovelhas experimentando a humilhação de viverem na Babilônia, encontram-se visivelmente dispersas, machucadas e feridas, tanto externamente como interiormente. Diante dessa situação de desolação e de morte, o profeta Ezequiel anuncia um tempo novo em que o próprio Deus, exímio pastor de seu povo e cheio de misericórdia, vai apascentar suas ovelhas e proclama: "Vede! Eu mesmo vou procurar minhas ovelhas e tomar conta delas. Como o pastor toma conta do rebanho, de dia, quando se encontra no meio das ovelhas dispersas, assim vou cuidar de minhas ovelhas e vou resgatá-las de todos os lugares em que foram dispersadas num dia de nuvens e escuridão (...) Vou procurar a ovelha perdida, reconduzir a extraviada, enfaixar a da perna quebrada, fortalecer a doente, e vigiar a ovelha gorda e forte. Vou apascentá-las conforme o direito. Quanto a vós, minhas ovelhas, — assim diz o Senhor Deus — eu farei justiça entre uma ovelha e outra, entre carneiros e bodes" (Ez 34,12.16-17).


Deus, Pastor do seu povo, na plenitude dos tempos (cf. Gl 4,4), envia seu Filho para conduzir as ovelhas da casa de Israel e de toda a humanidade como seu verdadeiro pastor e rei.


No Evangelho desse domingo, o discurso escatológico de Jesus é concluído com o texto que trata acerca do juízo final narrado por Mateus. Seguindo a mesma ideia das três parábolas que escutamos nos domingos anteriores, o Evangelho de hoje apresenta dois grupos que mostram comportamentos distintos enquanto esperam o Senhor que vem.


No início do texto evangélico ouvimos Jesus dizendo aos seus discípulos sobre a vinda do Filho do Homem. Este, sentado em seu trono reunirá todos os povos da terra que estarão ao seu redor e, assim como o pastor separa as ovelhas dos cabritos, Ele separará uns dos outros, as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda. "Esse separar lembra o modo de agir do pastor palestinense que à noite costumava separar as ovelhas dos cabritos (cf. Mt 25,32). Esse cuidado do pastor era, sem dúvida, necessário, já que, durante as noites frias da Palestina, os cabritos precisam de mais calor do que as ovelhas e por isso o pastor os coloca no lugar mais quente do curral. Mas aqui as ovelhas representam os justos e são colocadas do lado direito, os cabritos do lado esquerdo representando os condenados. O motivo dessa divisão é, certamente, porque, para o redator, as ovelhas são consideradas como animais mais valiosos"¹ .


Após a separar as ovelhas dos cabritos, o rei se dirigirá em diálogo às ovelhas que estão à sua direita e, também, aos cabritos que estão à sua esquerda (cf. Mt 25,31-33). No que diz respeito aqueles que estão à sua direita, convida-os para tomar posse do seu reino e, em tom exultante, diz: "‘Vinde, benditos de meu Pai! Recebei como herança o Reino que meu Pai vos preparou desde a criação do mundo!" (Mt 25,34). Essa exclamação dirige-se àqueles que escolheram o amor como critério de vida fraterna. Tudo o que fizeram para aqueles que mais necessitavam, o amor foi a medida de suas ações. O Rei, identificando-se com os mais necessitados, deixa claro que o amor que dispensaram aos pequeninos, na verdade, foi dispensado a Ele. Enquanto isso, o mesmo Rei vai se dirigir àqueles que estão à sua esquerda para dizer-lhes: "Afastai-vos de mim, malditos! Ide para o fogo eterno, preparado para o diabo e para os seus anjos" (Mt 25,41). Tal sentença destina-se para aqueles que escolheram como critério de vida a indiferença aos irmãos, sobretudo, aos mais carentes e necessitados aos quais o Rei da parábola do juízo final se identifica.


Cristo é esse Rei que se identifica com aqueles que carecem de proteção nesse mundo. Tratados com indiferença pelos falsos pastores que pastoreiam apenas a si mesmos buscando seus próprios interesses, os pequeninos terão como o seu pastor o Filho de Deus e com segurança poderão dizer acerca Dele: "O Senhor é o pastor que me conduz; não me falta coisa alguma" (Sl 22,1).


A Palavra de Deus nessa eucaristia nos recorda sobre a nossa preparação para acolher o Senhor que vem. Embora saibamos que Ele já veio e está no meio de nós, Cristo voltará novamente. Por isso, somos exortados pelo Evangelho a esperá-lo através de uma vigilância manifestada por meio de ações que expressam amor e misericórdia com o outro, sobretudo, aos irmãos mais necessitados. Não podemos esquecer que, além de ovelhas, também somos pastores que precisam cuidar uns dos outros. Acerca desse Evangelho, São Gregório de Nissa diz: "Inclino-me a crer que esta descrição tão detalhada daquele juízo, que parece um quadro pintado ao vivo, não tem outra finalidade que inculcar-nos a beneficência e induzir-nos a praticar a benevolência"².


Caríssimos irmãos, Cristo, através da Igreja que é luz dos povos, chama-nos a atenção para que não negligenciemos o amor ao próximo comportandonos de forma indiferente à dor alheia. A espiral de violência gerada pelo egoísmo que não se incomoda com o sofrimento do próximo precisa ser quebrada através do nosso testemunho cristão, ou seja, precisamos ser para o outro um Cristo que age com entranhas de misericórdia. Aliás, as obras de misericórdia corporais e espirituais, presentes em nossos catecismos, devem sair do plano teórico-intelectivo para encontrar um lugar em nós a fim de que sejam colocadas em prática. Dessa maneira, será testemunhada, também, a nossa fé no Senhor, pois, se a fé não se traduzir em obras, é morta em si mesma (cf. Tg 2,17). Que o Espírito de Deus sempre nos faça lembrar que seremos julgados pelo amor que realizamos na vida do outro e por esse amor, realizado de forma desinteressada, seremos salvos. Afinal, "o amor não busca os seus próprios interesses; o amor tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta" (1Cor 13,5.7).


Ao nosso Deus toda honra e toda a glória pelos séculos dos séculos.


 

1 BOUZON, E., ROMER, K. J. A Palavra de Deus - No anúncio e na oração. Ano A. p. 401.

2 Lecionário Patrístico Dominical, p.259.

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