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Homilia Pe Eufrázio - Solenidade de Todos os Santos

"Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados" (Mt 5,4)



Leituras: 1ª Leitura - Ap 7,2-4.-9-14

Salmo - Sl 23(24),1-2.3-4ab.5-6 (R.6)

2ª Leitura - 1Jo 3,1-3

Evangelho - Mt 5,1-12a


Com alegria celebramos com toda a Igreja numa só festa os méritos de todos os Santos. Em outras palavras, celebramos a vida de homens e mulheres que se deixaram transfigurar pelo Espírito Santo, conformando suas vidas à vida de Cristo. Por isso, em razão dos méritos dessa multidão de bem-aventurados que gozam da visão beatífica, não hesitamos em pedir ao Pai, fonte de toda santidade, que Ele nos conceda a plenitude da sua misericórdia.


A cada domingo, a Igreja se alimenta da Palavra de Cristo, seu esposo. Assim como o noivo nas núpcias desposa a sua noiva, Cristo desposa a sua Igreja conduzindo-a ao deserto desse mundo para lhe falar ao coração (cf. Os 2,14) através do seu Evangelho.


No Evangelho desse domingo, coração da liturgia da Palavra, escutamos o célebre texto que narra o discurso de Jesus conhecido como "Sermão da Montanha" (Mt 5,1-7,27). Ora, se no monte Sinai, Deus entregou a Moisés o Decálogo que para o povo hebreu foi o norte de sua vida a fim de que, observando os mandamentos, fosse um povo bem-aventurado, Mateus nos apresenta Jesus como um novo Moisés. Depois de subir ao monte e estando sentado, Jesus ensina aos seus discípulos um programa de vida que contempla o mistério do Reino dos céus que foi inaugurado em nós pelo batismo.


Diante de muitos macarismos1 presentes no Evangelho desse domingo, vamos refletir apenas um deles, a saber: "Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados" (Mt 5,4). Para designar o termo "aflitos" o texto grego apresenta o verbo pentountes do verbo pentéo2 no infinitivo que significa "chorar", "estar de luto", "estar aflitos". Para aqueles que choram pela doença que tocam seus corpos ou de alguém que amamos, pelo luto que vivem, pelas perdas que se manifestam de variados modos provocando dores e lágrimas, Cristo lhes faz uma promessa de que serão consolados. Esse consolo prometido pelo Senhor para aqueles que choram, no texto grego está expressado pelo verbo parákletésontai do verbo parákaleo3 que significa "chamar", "confortar", "consolar" alguém. Do mesmo verbo temos a palavra "paráclito" que é a junção de duas palavras gregas: a preposição pará 4 que se traduz como "ao lado", "perto", "junto a"; unida ao verbo kaléo5 que significa "chamar", "convocar". Dessa forma, podemos traduzir a palavra "paráclito" como "aquele que é chamado para estar ao lado de alguém". Em suma, o Senhor sempre será o "paráclito" do seu povo, pois, vendo suas aflições nesse mundo, Ele não deixará de intervir em favor dos seus filhos. Exemplo disso, temos o episódio posterior à revelação que Deus faz de si a Moisés ao anunciar a sua missão de libertar os israelitas da casa da escravidão dizendo-lhe: "Eu vi, eu vi a miséria do meu povo que está no Egito. Ouvi seu grito por causa dos seus opressores; pois eu conheço as suas angústias. Por isso desci a fim de libertá-lo da mão dos egípcios, e para fazê-lo subir desta terra para uma terra boa e vasta, terra que mana leite e mel (...) o grito dos israelitas chegou até mim" (Ex 3,7-9a).


Conforme nos apresenta o autor sagrado, Deus nunca está indiferente às dores do seu povo eleito, menos ainda, às dores do novo povo que é a Igreja, cujos filhos ela gera continuamente pela Palavra. Assim como o Senhor agiu na história dos israelitas para lhes salvar, de igual modo, Ele vê as dificuldades que vivemos, ouve as nossas súplicas e, conhecendo as nossas aflições, desce ao nosso encontro para nos libertar dos "Egitos" que surgem dia a dia dentro e fora de nós. A descida realizada por Deus até nós se manifesta de modo singular com a Encarnação do seu Filho (cf. Jo 1,14). Durante toda a sua peregrinação, desde a Galileia até a Judéia, por onde Jesus passava, realizou o bem e, libertando do mal muitos daqueles que encontrava no caminho, manifestou o rosto misericordioso de Deus, por exemplo: curou o leproso (cf. Lc 5,12-16) e o paralítico (cf. Lc 5,17-26); chamou Levi para segui-Lo (cf. Mt 9,9); perdoou os pecados da mulher que chorava e com as lágrimas lavava os seus pés (cf. Lc 8,36-50); curou a hemorroíssa que Nele viu a esperança de sua vida (cf. Lc 8,43- 46); curou um homem de mão atrofiada em dia de sábado (cf. Mc 3,1-6) para mostrar, que "o sábado foi feito para o homem e não homem para o sábado; de modo que o Filho do Homem é senhor até do sábado" (Mc 2,27-28). Enfim, são muitos os episódios em que Jesus se apresenta como o "paráclito" dos homens e mulheres que via ao longo do caminho. Aqueles que estavam abertos à sua Palavra viva e eficaz (cf. Hb 4,12) experimentaram o consolo de Deus em seus corações feridos pelas dificuldades da vida, sobretudo, quando viviam rejeitados e marginalizados por causa da indiferença dos irmãos do seu próprio povo.


Experimentando antecipadamente a dor do luto em seus corações quando ouviram de Jesus que Ele voltaria para o Pai, os apóstolos também experimentaram o consolo do seu Mestre que lhes disse: "Não se perturbe o vosso coração! Credes em Deus, crede em mim também. Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fosse, eu vos teria dito, pois vou preparar-vos um lugar e quando for e vos tiver preparado o lugar, virei novamente e vos levarei comigo a fim de que onde eu estiver, estejais vós também" (Jo 14,1-3). Cristo rogou ao Pai para que "outro Paráclito" fosse dado aos seus amigos a fim de que permanecesse para sempre com eles (cf. Jo 14,16). Após o evento do calvário, esse "outro Paráclito" foi soprado em abundância sobre os discípulos que se encontravam num lugar às portas fechadas por medo dos judeus (cf. Jo 20,19-). O Espírito Santo, presente na criação, está presente na comunidade dos apóstolos recriando-os à imagem e semelhança do Ressuscitado realizando neles uma nova criação. Com os discípulos, o Divino Pneuma caminha ao seu lado como seu Defensor e permanece neles como o seu Consolador.


Caríssimos irmãos, este é o mistério que celebramos com a solenidade de todos Santos, ou seja, o mistério pascal de Cristo na vida de homens e mulheres que foram plasmados pelo Divino Espírito como verdadeiros ícones do CrucificadoRessuscitado. Em meio às vicissitudes da vida presente, os santos que a Igreja venera com alegria, não perderam a esperança porque acreditaram no amor que foi derramado em seus corações (cf. Rm 5,5). Diante dos sofrimentos e copiosas lágrimas que derramaram nessa terra de exílio, não desistiram do chamado que o Filho de Deus lhes fez e, pelo Espírito de Jesus, foram consolados em suas aflições. Hoje, gozando da eterna comunhão com Deus, diante do trono, cantam o hino dos redimidos dizendo: “Amém. O louvor, a glória e a sabedoria, a ação de graças, a honra, o poder e a força pertencem ao nosso Deus para sempre. Amém” (Ap 7,12). À luz de Cristo, observamos que em todos os santos e santas de Deus, a palavra do salmista se cumpre plenamente quando diz: “É assim a geração dos que o procuram e do Deus de Israel buscam a face” (Sl 23[24],6).


Recebendo do Pai o grande dom de sermos chamados filhos de Deus e, de fato, nós o somos (cf. 1Jo 3,1), experimentamos as mesmas realidades que o coro dos bem-aventurados viveram nesse mundo: alegrias e tristezas. Em meio aos sofrimentos que em nós geraram lutos e lágrimas, nessa Eucaristia dominical, a Palavra de Deus resgata-nos a esperança cristã, afinal, "os que lançam as sementes entre lágrimas, ceifarão com alegria" (Sl 125[126],5). A cerca da esperança em Cristo, através do apóstolo João, escutamos que "todo o que espera Nele, purifica-se a si mesmo, como também Ele é puro" (1Jo 1,3). Confiantes de que o Cristo se fez carne, armou em nós a sua tenda e manifestou a sua glória (cf. Jo 1,14), precisamos estar convencidos de que Ele também não deixará inacabada a obra de suas mãos (cf. Sl 138 [137],8). Portanto, supliquemos ao Pai, fonte de toda santidade, com a intercessão de Maria, consoladora dos aflitos, para que não percamos a esperança diante dos desafios que a vida nos impõem. Ao contrário, que a esperança cristã, purificando-nos de nossas própria vontades, nos conceda sempre recordar que são "bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados" (Mt 5,4). Ao nosso Deus toda honra e toda a glória pelos séculos dos séculos.

 

1 Do grego makários, adjetivo que significa "bendito", "feliz", chama-se de "macarismos" o conjunto das bem-aventuranças proclamadas por Jesus no sermão da montanha (Mt 5,3-11).

2 RUSCONI, C. Dicionário do Grego do Novo Testamento, p. 365.

3 RUSCONI, C. Dicionário do Grego do Novo Testamento, p. 353

4 RUSCONI, C. Dicionário do Grego do Novo Testamento, p. 349.

5 RUSCONI, C. Dicionário do Grego do Novo Testamento, p. 247.

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