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Homilia Pe Eufrázio-13º Domingo Tempo Comum - Ano C



Leituras: 1ª Leitura - 1Rs 19,16b.19-21

Salmo - Sl 15(16), 1-2a.5.7-8.9-10.11 (R. 5a)

2ª Leitura - Gl 5,1.13-18

Evangelho - Lc 9,51-62


Nesta eucaristia dominical, em oração, nos dirigimos a Deus suplicando que Ele não nos deixe ser envolvidos pelas trevas do erro, mas que brilhe em nossas vidas a luz da verdade¹ . Na celebração litúrgica, uma das maneiras de a luz do Senhor irradiar o seu brilho em nós é quando escutamos a Sagrada Escritura. Conforme diz o salmista, ela é "lâmpada para os nossos pés e luz para o meu caminho" (Sl 118[119],105). Assim, iluminados interiormente, a Palavra de Deus faz crescer em nós a fé no Cristo e, progressivamente, as trevas da nossa ignorância vão sendo dissipadas para olharmos com sabedoria todas as situações que acontecem conosco.

Escutamos na primeira leitura, o relato da vocação de Eliseu. Depois de reconduzir, por meio da sua atividade profética, os israelitas do Reino do Norte à fé no Deus Criador-Libertador, Elias recebe uma ordem da parte do Senhor para ungir Eliseu a fim de sucedê-lo na missão profética. Deus disse a Elias: "Vai e unge a Eliseu, filho de Safat, de Abel-Meula, como profeta em teu lugar. Elias partiu dali e encontrou Eliseu, filho de Safat, lavrando a terra com doze juntas de bois; e ele mesmo conduzia a última. Elias, ao passar perto de Eliseu, lançou sobre ele o seu manto" (1Rs 19,16b.19). Diferente do rito de unção dos reis de Israel e de Judá, a unção de Eliseu é realizada pelo gesto de lançar o manto sobre ele. "O manto simboliza a personalidade e os direitos do seu dono. Elias adquire assim um direito sobre Eliseu que não pode se furtar. Além disso, o manto de Elias tem eficácia milagrosa (cf. 2Rs 2,8)"² . Vale ressaltar que a vocação de Eliseu, diferente da vocação de Isaías (cf. Is 6,1), não acontece no ambiente sagrado como o santuário ou o Templo. Ele é chamado no ordinário da sua vida, isto é, no cotidiano do seu trabalho cultivando o campo.

Eliseu, compreendendo o gesto de ver o manto do profeta lançado sobre o seu corpo, rende-se ao chamado de Deus e, imediatamente, deixa os seus bois e vai ao encontro de Elias, dizendo: "Deixa-me primeiro ir beijar meu pai e minha mãe, depois te seguirei. Elias respondeu: “Vai e volta! Pois o que te fiz eu?'" (1Rs 19,20-21). Diferente de Moisés (cf. Ex 3,11) e Jeremias (cf. Jr 1,6), Eliseu não questiona sobre a sua vocação, ao contrário, põe-se disponível na missão à qual foi chamado. Isso pode ser verificado por meio das suas ações que mostram um sinal de ruptura radical com a sua vida comum: ele dá o beijo de despedida em seus pais, imola uma junta de bois, queima a madeira do seu arado para assar a carne e festeja com os seus companheiros (1Rs 19,21a). A vocação de Eliseu é razão para festejar e celebrar. Depois de comemorar e ter realizado a sua despedida, Eliseu "levantou-se, seguiu Elias e pôs-se ao seu serviço" (1Rs 19,21b). O relato da vocação de Eliseu mostra que o chamado de Deus em sua vida é uma lição que nos ensina a estarmos de prontidão para o seguimento, assim como o despojamento para seguir o Senhor na missão que Ele nos confia. É natural que todo chamado de Deus provoque insegurança e até mesmo o medo. Contudo, o testemunho do santo salmista é uma resposta do Espírito que devemos acolher, sobretudo, diante de muitas interrogações que fazemos acerca da missão a qual o Senhor nos chama para servi-lo. Respondendo ao seu chamado e confiando-nos inteiramente a Ele, dizemos: "Guardai-me, ó Deus, porque em vós me refugio! Digo ao Senhor: 'Somente vós sois meu Senhor, nenhum bem eu posso achar fora de vós!' Ó Senhor, sois minha herança e minha taça, meu destino está seguro em vossas mãos!" (Sl 15,1-2a.5)

Nessa mesma perspectiva temática presente na primeira leitura, ouvimos no Evangelho uma perícope que pode ser dividia em duas partes. Na primeira parte temos o relato dos mensageiros de Jesus a respeito do mal acolhimento entre os samaritanos (cf. Lc 9,51-56) e a segunda parte, relata uma série de ditos de Jesus que tratam sobre a radicalidade da vocação cristã (cf. Lc 9,57- 62).

Na primeira parte, inicialmente, o evangelista Lucas afirma que "estava chegando o tempo de Jesus ser levado para o céu" (Lc 9,51a). No texto grego, encontramos o termo analémpsis³ que significa "erguimento", "elevação", "assunção", derivado do verbo analambáno que pode ser traduzido como "ser erguido", "ser elevado", "arrebatar". Tal termo nessa obra lucana evoca a tradição bíblica do AT relacionado ao arrebatamento do profeta Elias (cf. 2rs 2,11). Em outras palavras, Lucas relaciona Jesus em seus últimos dias de sofrimento e os primeiros dias de seu destino glorioso com a tradição da "assunção" do grande profeta dos textos veterotestamentários. Em vista do seu destino, deixando definitivamente a região da Galileia, Jesus toma a firme decisão de ir para Jerusalém (cf. Lc 9,51b) e, antes de chegar na cidade santa, envia mensageiros à sua frente a fim de que preparassem a sua hospedagem na Samaria (cf. Lc 9,52). Geograficamente, esse caminho era realizado naturalmente pelos peregrinos galileus. Contudo, era um percurso perigoso em virtude da hostilidade que, historicamente, já havia entre os samaritanos e os judeus. Os mensageiros de Jesus entram num povoado da Samaria, porém, vendo que o Senhor ia para Jerusalém, os samaritanos não o acolheram (cf. Lc 9,53). Por esse motivo, os dois irmãos, Tiago e João, disseram a Jesus: "Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu para destruí-los?" (Lc 9,54). Novamente, aqui, o evangelista evoca a tradição de Elias que, sendo denominado como homem de Deus, fez descer fogo do céu sobre os chefes e comandados do rei Ocozias (cf. 2Rs 1,1-18). A atitude dos discípulos, que se outorgam detentores do poder divino, mostra claramente a sua personalidade impetuosa diante da falta de hospitalidade com Jesus pelos samaritanos. Eles são tomados pela intolerância e, por causa dela, desejam o extermínio do povo da Samaria. Imediatamente, Jesus os repreendeu e partiram para outro povoado (cf. Lc 9,55-56). Observamos com clareza o contraste da intolerância religiosa dos discípulos com a tolerância de Jesus em relação aos samaritanos. A vingança que permeia o coração de Tiago e João é mais grave do que a falta de hospedagem do povo da Samaria.

Na segunda parte do Evangelho, escutamos um tríplice modelo de vocação e os três episódios evidenciam acerca do seguimento de Jesus. No primeiro episódio, enquanto Jesus caminhava, na estrada, alguém o interpela dizendo: "Eu te seguirei para onde quer que fores" (Lc 9,57) e Jesus, ao dizer que "as raposas têm tocas e os pássaros têm ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça" (Lc 9,58), mostra que Ele, desde o seu nascimento (cf. Lc 2,1), se mostra mais "desprotegido" que as raposas e os pássaros. Assim, aquele que está disposto para pregar o Evangelho deve ter a consciência que ele não tem morada fixa e o seu seguimento exige também o despojamento que o conduz até a cruz.

Chamando um outro, Jesus lhe disse: "Segue-me" (Lc 9,59a). No entanto, a resposta desse segundo vocacionado, foi um pedido para que pudesse ir primeiro sepultar o seu pai (cf. Lc 9,59b) e Jesus lhe respondeu: "Deixa que os mortos enterrem os seus mortos; mas tu, vai anunciar o Reino de Deus" (Lc 9,60). Essa resposta do Senhor não tem como objetivo diminuir a dor e o drama daqueles que perderam um ente querido. Ao contrário, Jesus se comovia com os rituais fúnebres, como aconteceu com a viúva de Naim que se encaminhava, com seu duplo luto, para enterrar o único filho (cf. Lc 7,11-17). Esse segundo exemplo vocacional ganha melhor compreensão e maior importância quando entendemos a mentalidade e a sabedoria judaicas que mostravam a importância do gesto de dar a sepultura aos familiares. Era uma ação com um profundo valor a ponto de dispensar o judeu da oração do Shemá (cf. Dt 6,4-7), da oração das dezoito bênçãos e de todos os preceitos da Lei conforme apresenta a Mishnah Berakot 3,1a⁴ . Se esta segunda foi chamada para seguir o Senhor, mas realça o valor sobre a morte, Jesus quer dar um novo sentido àqueles que o seguem imprimindo, neles, a verdadeira vida que vem do Pai, iluminando a sua existência que muitas vezes é acompanhada pelas sombras do luto.

Por último, um outro diz a Jesus: "Eu te seguirei, Senhor, mas deixa-me primeiro despedir-me dos meus familiares" (Lc 9,60) Diferente de Eliseu na primeira leitura que, depois de festejar, se despediu dos seus familiares e convivas para seguir Elias, Jesus, maior do que esse profeta, é mais exigente quando diz ao terceiro que quer segui-lo: "Quem põe a mão no arado e olha para trás não está apto para o Reino de Deus" (Lc 9,61). A imagem do campo presente nesse dito de Jesus, também presente na vida de Eliseu, é muito interessante e, ao mesmo tempo, didática. Aquele que executa o trabalho de arar a terra, geralmente, está com o seu olhar fixado para frente e não olha para trás. O que está por vir é mais urgente em relação ao que ficou atrás. Por essa razão, Jesus ensina que o futuro exige que deixemos o passado em seu devido lugar, isto é, no próprio passado. Somente dessa maneira conseguiremos fazer algo maior quanto ao que já foi realizado por nós.

Caríssimos irmãos e irmãs, nessa eucaristia dominical somos chamados pelo Senhor para segui-lo. No entanto, precisamos nos interrogar sobre as nossas disposições para seguir o Cristo com as suas exigências. Será que estamos dispostos em segui-lo sem o desejo de vingança sobre aqueles que não nos acolhem? Será que estamos dispostos em seguir o Filho de Deus sem agir com intolerância no que concerne a falta de respeito às diversas manifestações religiosas presentes em nossa sociedade? Será que estamos dispostos em seguir o Filho do Homem que, nesse mundo, Ele mesmo, isento de morada fixa, não tinha onde reclinar a cabeça, cientes que conosco não será diferente? Será que estamos disponíveis para seguir Jesus com o coração preso, seja aos laços familiares seja ao passado que nos acompanha, impedindo-nos de ser verdadeiramente livres para pregar o Reino de Deus?

Na segunda leitura, temos uma luz para essas interrogações. São Paulo, fiel seguidor do Ressuscitado, afirma aos gálatas que "é para a liberdade que Cristo nos libertou" (Gl 5,1a) e, diante desse dom do Redentor, isto é, a liberdade, o apóstolo ainda exorta à comunidade dizendo-lhes: "Ficai, pois, firmes e não vos deixeis amarrar de novo ao jugo da escravidão. Sim, irmãos, fostes chamados para a liberdade. Porém, não façais dessa liberdade um pretexto para servirdes à carne. Pelo contrário, fazei-vos escravos uns dos outros, pela caridade. Com efeito, toda a Lei se resume neste único mandamento: 'Amarás o teu próximo como a ti mesmo'" (Gl 5,1b.13). Hoje, escutando a sua Palavra, o Cristo nos chama para o seu seguimento e, desse modo, precisamos estar com os corações livres para respondê-lo com amor sincero, excluindo, por sua vez, os falsos radicalismos presentes em nossas atitudes que, inúmeras vezes, estão disfarçados tão somente como protestos de intransigência de nossa pouca bondade.

Portanto, se Elias lançou sobre Eliseu o seu manto como gesto de unção para segui-lo a fim de continuar a missão profética, hoje, Jesus lança sobre as nossas vidas a força do seu Espírito. É o Divino Pneuma que dilata o nosso coração para que, abandonando o que nos prende ao passado e nos impede de seguir Jesus, possamos responder com generosidade ao seu amor que nos provoca, a fim de anunciarmos o Evangelho com a voz e, sobretudo, com o testemunho de vida.

Ao nosso Deus toda honra e toda a glória pelos séculos dos séculos.



1 Oração coleta do 13º DTC.

2 Bíblia de Jerusalém, nota f, p.499.

3 RUSCONI, C. Dicionário do Grego do Novo Testamento, p.44.

4 COUTO, A. Quando Ele nos abre as Escrituras - domingo após domingo, Ano C, p.264.

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